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‘Stitches’ é o achado da Sérvia na Berlinale

11 fev 2019 / Sem comentários / em Cinema

Rodrigo Fonseca

É dia de a Sérvia brilhar nas telas da Berlinale.69 com um melodrama de uma centelha emotiva incendiária: “Stitches” (“Savovi”, no original), de Miroslav Terzic. O filme transforma em ficção, com uma potência trágica avassaladora, um crime histórico (e recorrente) nos países que um dia constituíram a Iugoslávia: o rapto de bebês, ainda na maternidade, onde as crianças eram dadas como mortas para seus pais e encaminhadas para adoção em territórios ricos do Velho Mundo. A trama de Terzic acompanha a angústia de uma mulher, Ana (Snezana Bogdanovic), que há 20 anos celebra o aniversário do filho que teria morrido ainda no berçário, neném. Só que o Destino bate à porta de Ana com outra versão dos fatos. Estaria o menino – hoje já um adulto – vivo?

Após “Stitches”, a Panorama foi visitar o submundo da China, numa abordagem narrativa que evoca clássicos do policial hollywoodiano dos anos 1940. “The shadow play”, de Lou Ye, flerta com “O ano do dragão”, de Michael Cimino. O realizador do premiado “Amor e dor” (2011) cria um filme noir na Ásia dos dias atuais, seguindo os passos de um jovem policial que tenta averiguar o mistério por trás do suicídio de um executivo.

Quanto aos possíveis premiados… bom…
“God exists, Her name is Petrunya”, da Macedônia, virou o assunto do domingo na luta pelo Urso de Ouro, numa capital alemã que andava ocupada entre ódios e amores pela nova longa-metragem de Fatih Akin, “The Golden Glove”. Agora, o papo sobre as experiências estéticas do evento coloca uma mulher como protagonista, ou melhor, as muitas mulheres (e a própria condição feminina em si) que o drama de tom cômico busca representar, ao reviver um fato real. A direção é de Teona Strugar Mitevska. Muita gente já aposta que ela sairá daqui cheia de troféus. Seu maior rival até agora é “Öndög”, da Mongólia, o queridinho da crítica europeia, por uma exuberância visual inegável ao narrar o encontro entre um jovem policial e uma pastora num deserto onde apareceu um cadáver, do nada. Wang Quan’na é o diretor.
“A solidariedade é o caminho para as mulheres”, diz a diretora de 44 anos, conhecida pela curta “Veta” (2001) e pela longa “When the day had no name” (2017).
No roteiro, Teona sintetiza uma série de debates atuais, como a desigualdade salarial entre mulheres e homens, agressão, abuso sexual e fundamentalismo nas religiões. A trama de seu “Gospod postoi, imeto i’e Petrunija”) segue uma historiadora desempregada, Petrunya (Zorica Nusheva), cheia de problemas com a mãe, resgata das águas de um rio gelado uma cruz cristã que foi jogada lá por um padre em um ritual de fé só para homens. Seu gesto incendeia uma onda conservadora de repúdio e ela acaba na delegacia, para depor sobre sua “transgressão”.
Nesta segunda, a Berlinale recebe um dos mais fortes candidatos ao Oscar de 2019, o cineasta americano Adam McKay, acompanhado pelo ator galês Christian Bale, para a première alemã de “Vice”, um sucesso no Brasil. Bale ganhou o Globo de Ouro por seu desempenho (com 20 kg a mais) como o vice-presidente de George W. Bush, Dick Chenney, a quem ele compara a Satã por suas jogadas política envolvendo a guerra contra o Iraque, em 2003.

Vale frisar que a Berlinale 2019 está dando um banho de qualidade na de 2018. Nosso xodó aqui é “The Golden Glove”. Mas Teona é quem mais merece ganhar o Urso, até este momento.

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