Laboratório Pop

Marcelo Falcão limpa o lixo das festas nas lanchas

15 fev 2019 / 3 comentários / em Música

Mario Marques

A Carlla Bastos é uma das poucas pessoas que me fazem lembrar da suposta existência da indústria fonográfica. E ela me lembra isso todo dia, em seus stories no Instagram, com uma maratona de jobs musicais que cansam só de olhar. Eu envio um whatsapp para ela sobre o disco solo de Marcelo Falcão, o qual acabara de ouvir, “Viver” (mais leve que o ar”) – que me remete rasgadamente a uma letra de uma linda canção de Nei Lisboa, “Pra te lembrar”, gravada por Caetano Veloso (…“mais leve que o ar, tão doce de olhar, que nenhum adeus pode apagar…”. Como marqueteira luxo que é, já até me sugere na abertura do lead da crítica que anunciei cometer: “Mario, diz que ‘hoje você decidiu voltar a escrever uma crítica de disco”, alusão à faixa “Hoje eu decidi”. (Carlla, ainda se usa “faixa” para dar sinônimo à música)? Mas não, não vou fazer isso. Porque eu não decidi nada. O disco que decidiu por mim.

O que eu disse para a Carlla no whatsapp? Que o disco é bom pra caralho. E, quando isso acontece, vale o registro porque o Brasil hoje é uma usina de discos e lançamentos pateticamente medíocres. Imagine o que é ser crítico de música hoje tendo que ouvir “bora beber!” e outros lixos que os executivos de gravadoras tapam o nariz, vomitam no banheiro e voltam à mesa com os contratos assinados, mas com os boletos da patroa devidamente pagos.

Falcão é, decididamente, um artista brasileiro gigante, que sempre trançou estilos e formulou seu timbre nos gringos. Mesmo sem vender a alma ao Rock In Rio, onde nunca pisou com o Rappa, manteve relevante, jovem, dinâmica e ousada uma banda de rock-pop-reggae, com ou sem Marcelo Yuka.

O chute no passado recente, com uma construção tijolo a tijolo de um disco profundamente moderno, esteticamente complexamente-simples, despojado, pop, romantiquinho até, é forte.

Falcão bota a cara pra surrar, e deve enfrentar essas comparações esdrúxulas de suas letras com as de Yuka. Assumir-se letrista e cantor de suas próprias canções, afinal, é uma enorme decisão artística. Djavan, cuja obra, autoralíssima, tem altos e baixos em seu manancial de letras controversamente analisadas, modelou-se em sua própria casca. Falcão segue, com personalidade, tal traçado.

Por isso, quando canta o reggae-pop “Hoje eu decidi”, veste-se de si mesmo para abrir um disco que se uniformiza na perfeita combinação de melodia e letra. Do começo ao fim o tratado é de inteligência, nos arranjos de metais, nos samplers, nas brincadeiras pornô-game-eletrônicas.

O disco de Falcão é solar. Bom para festas, aniversários, batizados e vitórias do Vasco sobre o Flamengo. Animadão. Pode deixar tocando todo direto tanto no barco com espumante quanto no churrasquinho na laje. Pode até servir para salvar aquela festa chique na qual as mulheres deliram diante aqueles hits pavorosos da Vitrinni.

Falcão reforça características vocais experimentadas no Rappa à exaustão, com vozes sobrepostas, improvisações que viram registro oficial, liberdade de criação. Nesse sentido, fica largamente visível que é um disco brutalmente libertário de amarras, com suores de ao vivo como os de “Voar, flutuar”. Ou na limpeza e silêncios de “Mais leve que o ar”. É tipo “vai gravando aí”. Dinâmica distinta daquelas gravações tensas que todo mundo dá pitaco e os técnicos de som ficam com aquela cara de tédio olhando pro relógio do celular pensando na série nova que estreou no Netflix.

O acontecimento é mesmo “Só por você”, uma canção que, noutra embalagem, poderia estar no repertório do Roberto Carlos ou do Fábio Jr. A questão aqui não é de formato: é de compreensão de uma canção. Falcão poderia se meter a cometer barulhinhos e estranhezas modernosas, mas apostou na doçura de melodias que parecem nascer de parto normal em ambiente tecnicamente perfeito numa Perinatal.

O disco tem as boas mãos de Felipe Rodarte, o comandante da Toca do Bandido, que sobe e desce botões dos estúdios há algum tempo com novos do rock e veteranos do nosso pop. A estratosfera do disco tem um núcleo de feras do Cidade Negra, Paralamas e do próprio Rappa, além da metaleira arregimentada em discos brasileiros de autêntico gospel brazuca.

É com essa junção de escolas que surge a épica “Meu caminho”, com uma interpretação apoteótica de Falcão entre graves e agudos. E também da inominável leitura de “Senhor, fazei-me de mim (um instrumento de sua paz) (Oração de São Francisco”, hit de missas e crismas, aqui possuída por texturas de guitarras e vocais celebrativos de mãe e tias de Falcão. Uma emocionante homenagem à família, essa instituição tão atacada de bordoadas por uma sociedade toda errada. Uma versão, para quem não conhece a alma das igrejas, linda para cânticos e fins de concertos.

Marcelo Falcão e suas canções atropelaram o “Bora beber” das festas chiques e entregou um disco chiquérrimo, potente, voraz, rico e catártico. Virem o disco dessas festas pobres, amigos ricos com lanchas.

Tantas carreiras solos que se perdem na busca do mesmo sucesso do trem anterior que parece que a de Falcão começou agora. Valeu.

Carlla Bastos, agora sim, hoje eu decidi parar um diagnóstico de pesquisa qualitativa gigante para ouvir e escrever sobre este que será, decerto, o melhor disco brasileiro de 2019.

Deixa eu trabalhar.

Beijos.

MM

3 comentários:

  1. cidea Pereira disse:

    Quero conhecer essa obra do Falcão

  2. Danny Mattos disse:

    Carlla Bastos cada dia que passa tenho mais orgulho de você. Nota 1000 pra ti

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