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Grisa experimenta sem limites para música

Ela lança livro a partir de álbum em momento no qual chama atenção na cena indie brasileira

por Robert Halfoun

Quem ouve “Trailers do Futuro”, novo single da banda sergipana Cidade Dormitório, percebe um descolamento estrutural, algo que vem se desenhando mas não revela exatamente o que virá. As guitarras respiram devagar, os versos parecem caminhar na penumbra… Então, o universo musical se abre. Não é um solo, não é um refrão explosivo. É uma voz que entra lateralmente, altera a temperatura da faixa e muda o ponto de vista da canção.

Há ali uma inflexão real que permanece no ouvido depois que a faixa termina. Para quem acompanha a cena alternativa brasileira, o timbre não deixa dúvida: é Grisa. E tal participação diz muito sobre o lugar que ela ocupa hoje – restrito e muito valioso.

O momento com mais visibilidade coincide com um movimento recente dentro de sua própria obra. Em março de 2026, Grisa lançou o livro-objeto inspirado no álbum Amor Trespasse, trabalho que amplia o universo sensorial do disco lançado em junho de 2025. O projeto parte da lógica visual do antigo “olho mágico” — aquelas imagens aparentemente abstratas que revelam figuras ocultas quando observadas de determinada forma.

No livro, cada composição do álbum corresponde a uma imagem, criando um diálogo entre percepção visual e escuta musical e transformando o repertório em experiência tátil e gráfica.

A iniciativa sintetiza bem o modo como Grisa pensa sua produção artística. Em vez de tratar o disco como objeto fechado, ela o vê como um núcleo a partir do qual outras linguagens podem surgir — imagem, design, performance e experimentação sonora. Olha o que ela diz sobre a faixa “Animais”: “Toquei no violão e num omnichord. um dos meus instrumentos preferidos. Nele você faz acordes no teclado como em um acordeon, depois a touchplatefaz soar como uma harpa eletrônica. Também tem a cítara que construí, usei ela de um jeito não tradicional, só fazendo sons e puxando as cordas. Gravei em um take, sem regravar”.

Giovana Ribeiro Santos, a Grisa, nasceu em Assis, no interior de São Paulo. Sua trajetória se desenvolve num território pouco comum: o ponto de encontro entre a canção pop e a investigação científica do som.

Ela formou-se em engenharia mecânica pela Unicamp e aprofundou seus estudos em engenharia acústica na Le Mans Université, na França. Ao longo dessa formação participou de projetos ligados à Philharmonie de Paris e também à Universidade de Edimburgo, experiências que ajudaram a consolidar um olhar técnico sobre aquilo que, na música popular, quase sempre permanece invisível: a própria matéria sonora.

Esse percurso não ficou restrito ao campo acadêmico, ele atravessou diretamente sua criação artística.
Além de cantar e compor, Grisa também atua como luthier eletrônica, desenvolvendo instrumentos experimentais e dispositivos híbridos que utiliza em gravações e performances. Em vez de apenas escolher timbres disponíveis, ela frequentemente participa da construção do próprio instrumento que produzirá o som. A música, nesse caso, começa antes da canção — começa na própria engenharia do timbre.

Antes de afirmar essa identidade experimental, sua formação musical passou por caminhos bastante tradicionais. Ainda jovem estudou flauta doce e clarinete, participou da Big Band Lyra e frequentou o Festival de Música de Ourinhos, um dos centros históricos de formação musical do país. Esse contato inicial com a música instrumental ajudou a desenvolver um ouvido atento à estrutura sonora que mais tarde reapareceria em suas composições.

Sua presença na cena independente começou a se tornar perceptível no início da década de 2020. Um dos primeiros registros amplamente divulgados foi “Selva de Pedra”, canção que ganhou videoclipe em 2020 e já trazia traços do universo estético que Grisa continuaria explorando: tensão emocional contida, arranjos rarefeitos e forte dimensão visual.

Em 2022, essa linguagem ganhou forma mais definida com o EP “Caos // Mar Aberto”, desenvolvido a partir de gravações iniciadas durante a pandemia. O trabalho reúne canções que transitam entre ambient pop, indie eletrônico e momentos de experimentação sonora mais aberta, sempre sustentadas por uma construção minuciosa de timbres e atmosferas.

Nos anos seguintes, a artista passou a circular com mais intensidade dentro da rede da música alternativa brasileira. Seu nome apareceu em colaborações, coletâneas e projetos paralelos — entre eles as faixas “Any Problem If I Stay?”, com dramamine e SLSD, e “Horizonte Inerte”, com evt, incluída na coletânea Somnium. Mais do que participações pontuais, esses encontros revelam a lógica de funcionamento da cena independente contemporânea: uma rede de afinidades criativas na qual artistas transitam entre projetos e linguagens.

Em 2022 ela também lançou o EP “Wet Matchbox”, ampliando sua discografia e explorando novas direções sonoras. Esse percurso culminou em Amor Trespasse, seu primeiro álbum, lançado em junho de 2025 pelo selo midsummer madness.

O disco reúne várias dimensões do seu trabalho — canção intimista, pesquisa tímbrica e elaboração visual — e acabou se tornando o eixo central de sua obra até aqui. Antes do lançamento completo, Grisa apresentou singles como “Três de Espadas” e “Fogo Frio”, seguidos por “Mares de Morros”, que ampliaram o repertório desse momento de afirmação artística.
Parte desse universo criativo foi desenvolvido na Casa Líquida, espaço do qual Grisa é artista residente.

Na zona oeste de São Paulo, a Casa Líquida funciona como um laboratório artístico e residência criativa onde músicos, artistas visuais e pesquisadores convivem por períodos prolongados, desenvolvendo projetos em regime de troca constante.

O espaço abriga também o Estúdio Sem Piscina, onde algumas gravações ligadas ao universo de Amor Trespasse foram realizadas.

Mais do que um endereço de produção, a Casa Líquida tornou-se uma extensão natural do método de trabalho da artista. O ambiente privilegia justamente aquilo que define sua prática: o encontro entre pesquisa individual, experimentação técnica e convivência artística.

Nos últimos meses, essa expansão também se refletiu em novos registros audiovisuais e apresentações ao vivo, como a sessão “Grisa na Casa Rockambole”, em que a artista aparece acompanhada de banda interpretando músicas de Amor Trespasse, faixas anteriores e material inédito.

Enfim, entre laboratório e canção, entre circuito eletrônico e voz humana, entre constrição e expansão, Grisa constrói uma obra em constante transformação que parece não caber em si mesma.