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Maria Iskariot é o Nirvana de saias

Banda belga lembra Nirvana no início, com brasileira no baixo

por Robert Halfoun

“Há dois anos, a gente não se conhecia. Helena vivia sozinha numa floresta, em busca de paz. Depois foi para a guerra, fazer cobertura jornalística na Ucrânia, tentando buscar algum sentido da humanidade. Amanda estava fugindo da máfia brasileira. Com nada além de alguns milhos na mochila, vendeu a alma para se tornar belga. Loeke morava em cima de um deserto médico e fez amizade com uma garça bizarra que lhe revelou algo como a pedra filosofal. Desde então, fala cinco línguas. Por fim, Sexy Sybe ainda vivia como um cachorro, roendo seu osso entre irmãos caninos (ele cresceu em uma matilha de 17).”

Se isso soa como uma fábula delirante, ótimo. É exatamente daí que nasce a Maria Iskariot. Não como projeto, plano de carreira ou resposta a um mercado — mas como gente em rota de colisão, sem outra saída possível. E como precisamos disso de vez em quando, não é mesmo?

Tudo isso explica a agressividade autêntica e visceral que a banda mostra brilhantemente nos palcos e no álbum de estreia Wereldwaan, lançado em outubro de 2025 pelos selos Burning Fik (Holanda) e Montgrí (Espanha).

Vamos definir: Maria Iskariot é uma banda de punk rock em neerlandês, formada em Gante, em 2022. A formação conta com Helena Cazaerck (voz e guitarra), Loeke Vanhoutteghem (guitarra), a brasileira Amanda Barbosa (baixo) e Sybe Versluys (bateria). Ainda bastante underground na Europa, apesar de uma agenda intensa de turnês, o grupo construiu sua reputação dentro dos buracos e fazendo participações em palcos para mais gente, empurrando a plateia contra a parede com uma porrada sonora de respeito e uma performance alucinada, imprevisível.

Quer comparar? Nirvana no início da carreira, principalmente, e bandas punk e pós-punk que vieram antes dela. Isso significa riffs repetitivos, músicas construídas mais por tensão do que por progressão, vocais gritados, sem polimento algum, como se não houvesse amanhã. Em neerlandês!

A ideia aqui não é captar a mensagem pelo idioma, mas pela urgência. Mensagem captada nas 2 milhões de visualizações do vídeo ao vivo da música “Leugenaar”, que levou a banda para muito além da Bélgica.

O passo inicial está dado: agora é escalar do underground sabe-lá para onde, mas é longe e, inevitavelmente, com uma posição de destaque.
Num momento no qual muita música alternativa se refugia no cool, Maria Iskariot aposta no excesso, no desconforto. No que não se resolve em playlist.
O foda-se está ligado: viva!