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Play Me

Kim Gordon

Março’26

Matador

Por Laboratório Pop

Kim Gordon é a grande musa do indie e disso não se discute. O seu caminho solo, que encosta no eletrônico, revela um dos aspectos mais relevantes da música alternativa atual: a lenda do Sonic Youth é tão referência quanto foi — muito longe da baboseira de estar construindo um legado.

Play Me não é um disco fácil — e isso faz todo sentido. A escuta pede adaptação ao ritmo das faixas, que se constroem por repetição, atrito e pequenas variações, sem oferecer resolução clara. Não há refrões evidentes nem condução melódica tradicional. O centro está no pulso e na textura.

O som parte de bases eletrônicas secas, com batidas próximas do industrial e de uma cadência urbana minimalista, sobre as quais entram guitarras dissonantes, ruídos e intervenções pontuais. Em vez de preencher o espaço, os elementos são distribuídos com folga, criando uma sensação de vazio controlado. A voz de Kim Gordon aparece em primeiro plano, muitas vezes falada, com entonação direta e sem dramatização.

“Play Me” já estabelece esse campo: batida constante, poucos elementos e uma progressão que se mantém praticamente inalterada. “Static Mind” segue com a mesma lógica, insistindo no mesmo padrão até o limite. Em “Body Language”, o groove se torna mais evidente, aproximando a faixa de um pós-punk eletrônico, enquanto “Glass Cage” desacelera e amplia o espaço entre os sons. “No Relief” é o ponto de maior atrito, com guitarra mais presente e uma aspereza que remete ao Sonic Youth, mas sem a expansão que marcava discos como Daydream Nation.

Em relação à fase solo, o disco se aproxima mais da base eletrônica de No Home Record do que da densidade de The Collective, mas com menos fragmentação. As ideias são poucas e levadas até o fim. Não há desvio.

É um álbum que se direciona a um público específico dentro do indie — menos interessado em melodia ou refrão e mais em repetição, ruído e construção de ambiente. Há proximidade com uma cena que orbita nomes como Dean Blunt ou Tirzah, onde a economia de elementos e a fricção são parte da linguagem.

A Pitchfork destacou a “disciplina estrutural” do disco (7.6/10), enquanto a NME apontou um trabalho “intencionalmente áspero” (4/5). Já o The Guardian avaliou com 3/5, ressaltando a consistência dentro de um campo restrito.