
Morrissey chega a Make Up Is a Lie com um tipo de ajuste que não é comum em sua discografia recente: menos dispersão, mais foco e um senso de medida que aproxima o disco de momentos mais fortes de sua trajetória solo. Não há tentativa de reinvenção nem de confronto com o presente — há organização.
A base continua reconhecível, mas o desenho das músicas lembra mais o período de You Are the Quarry do que os trabalhos mais irregulares dos últimos anos. As canções entram mais direto no ponto, sustentam melhor suas ideias e evitam alongamentos desnecessários. Isso dá ao disco uma unidade que nem sempre esteve presente em álbuns como World Peace Is None of Your Business ou Low in High School.
A faixa-título, “Make Up Is a Lie”, funciona como síntese desse movimento. Há ironia, há melodia clara e uma condução vocal que remete ao Morrissey mais seguro de sua própria linguagem. “Saint in a Suit” mantém esse eixo, com andamento estável e um desenho que privilegia a linha vocal. Em “Late Apologies”, o ritmo desacelera e aproxima o disco de um registro mais introspectivo, lembrando momentos de Vauxhall and I, principalmente na forma como a voz ocupa o centro da canção.
Quando o disco ganha mais corpo, a referência se desloca. “The Public Eye” traz uma guitarra mais presente, com algo da urgência que, em outro contexto, poderia remeter ao The Smiths — não na forma de replicar o som de Johnny Marr, mas na maneira como a música avança sem perder leveza. “Shame Is a Mirror” segue por um caminho próximo, mas com menos impulso, mantendo o controle até o fim.
O que diferencia Make Up Is a Lie dentro da carreira solo é justamente essa relação mais equilibrada entre composição e interpretação. Em discos anteriores, muitas vezes a voz carregava tudo enquanto as músicas pareciam inacabadas ou excessivamente longas. Aqui, há correspondência: o que é cantado encontra uma estrutura à altura.
A recepção crítica reforça essa leitura de um trabalho mais ajustado. A Mojo destacou a “clareza de composição” e atribuiu 4/5, enquanto a Uncut deu 3,5/5, apontando um disco “mais coeso do que seus antecessores recentes”. Já a The Guardian avaliou com 3/5, reconhecendo consistência, ainda que sem grandes picos.
Não é um álbum que tenta disputar lugar com o período clássico dos Smiths, nem com os melhores momentos da carreira solo. Mas também não fica aquém deles. Make Up Is a Lie se posiciona num ponto raro dentro da discografia de Morrissey: um bom disco que entende seus próprios limites e trabalha a favor deles.
