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When A Flower Doesn’t Grow

Softcult

Jan.’26

Easy Life Records

por Robert Halfoun

Há um ponto em que o bom shoegaze deixa de ser apenas atmosfera e atua como linguagem – e não há tantas bandas que chegam nesse ponto. O Softcult chegou e When A Flower Doesn’t Grow é prova disso.

Com mais um mérito importante: ele não se apoia na nostalgia do gênero e encontra o seu próprio caminho, no qual densidade e mensagem sonora andam juntas.

As irmãs Mercedes Arn-Horn (voz, guitarra) e Phoenix Arn-Horn (bateria, vocais) trabalham com uma base simples que ganha corpo em camadas. As guitarras criam aquelas paredes sonoras típicas do shoegaze, complexas e contínuas, enquanto a voz, mesmo integrada à massa de som, destaca-se pelo timbre que conduz melodias compostas num degrau acima do que ouvimos no gênero. É o shoegaze olhando para o pop sem deixar de ser shoegaze.

Esse equilíbrio aparece logo de cara. “Pill To Swallow” abre o disco com um clima pesado, mas controlado, construído aos poucos. “I Held You Like Glass” puxa para um lado mais aberto, mais melódico, com espaço para a voz respirar. São faixas que mostram como o duo consegue trabalhar a atmosfera sem transformar tudo numa massa indistinta.

Ao mesmo tempo, o disco está longe de caber em qualquer avaliação que passe por suavidade. “Hurt Me”, “Not Sorry” e “Tired”, especialmente, têm mais ruído, mais pressão, mais ataque. Há ali uma intenção quase punk. Ainda assim, tudo continua dentro do campo do shoegaze — não vira outra coisa, apenas muda a pegada.
“16/25” talvez seja a melhor música do disco porque resume a proposta toda de uma vez só. “She Said, He Said” é mais porrada, mas igualmente marcante. O disco, enfim, alterna esses momentos com naturalidade, sem grandes rupturas, mas também sem cair na repetição.

Dentro da cena atual, o Softcult ocupa um espaço que vem ganhando força: bandas que não tratam o shoegaze como peça de museu, nem como algo a ser diluído completamente. É um meio-termo que conversa com o público indie de hoje — gente que quer textura, mas também quer música que fique.

Pode parecer cedo para dizer, mas não é exagero: When A Flower Doesn’t Grow já entra na conversa dos melhores discos do ano.