Na Tela

Aftersun: o cinema indie deixou de ser “pequeno”

O filme ajuda a entender o que o cinema independente foi, o que é e para onde irá

Por Laboratório Pop

Quando a diretora Charlotte Wells lançou Aftersun, com Paul Mescal e Frankie Corio, a leitura imediata foi a de um pequeno drama sensível sobre memória e relação entre pai e filha. Com o tempo, ficou claro que havia algo mais ali. O filme não apenas funcionava isoladamente — ele organizava, de forma quase invisível, um novo modo de fazer e ver cinema.

A história é simples. Uma jovem revisita, já adulta, uma viagem de férias que fez com o pai quando era criança. Não há grandes acontecimentos, nem revelações organizadas como virada. O que existe são fragmentos: momentos banais, gestos pequenos, silêncios que, à época, não significavam muito — mas que, vistos à distância, ganham outro peso. O filme não reconstrói o passado; ele tenta entender o que nunca foi totalmente compreendido.

É justamente essa escolha que ajuda a situar Aftersun dentro de uma mudança mais ampla.

Durante muito tempo, o cinema independente foi definido por escala. Filmes menores, feitos com menos dinheiro, fora dos grandes estúdios, mas ainda estruturados dentro de uma lógica narrativa bastante reconhecível. Nos anos 1990, títulos como Sex, Lies, and Videotape, de Steven Soderbergh, ou Clerks, de Kevin Smith, estabeleceram esse modelo. Eram filmes independentes porque eram baratos — não porque falavam uma linguagem radicalmente distinta.

Nos anos 2000, isso se sofisticou. Diretores como Richard Linklater (Before Sunset) e Noah Baumbach (Frances Ha) trouxeram um olhar mais íntimo, mais observacional, mas ainda ancorado em personagens, diálogos e progressão dramática clara.

Aftersun desloca esse eixo. O filme não se organiza a partir do que acontece, mas da forma como algo é lembrado. A memória não aparece como recurso narrativo — ela é a própria estrutura. Isso aproxima Wells de uma tradição que passa por Terrence Malick, Apichatpong Weerasethakul e Chantal Akerman, cineastas que trabalham o tempo, o silêncio e a sensação como matéria principal.

A diferença é que, aqui, essa linguagem deixa de ser percebida como “difícil” e passa a circular com naturalidade entre um público mais amplo. É nesse ponto que o cinema indie deixa de ser pequeno no sentido econômico e passa a ser reconhecido como uma linguagem específica, com identidade própria.

O percurso do filme reforça essa mudança. Aftersun estreia na Semana da Crítica em Cannes, ganha leitura imediata da imprensa internacional e passa a circular com um tipo de legitimidade que não vem do público — vem antes dele. Esse movimento se consolidou: festivais como Cannes, Berlim e Veneza voltaram a funcionar como filtros de relevância. O filme não chega ao espectador como descoberta bruta. Ele chega já interpretado, situado, discutido.

Ao mesmo tempo, os temas que atravessam Aftersun não são apresentados como discurso. Não há explicação sobre o que está em jogo. Ainda assim, tudo está lá: identidade, deslocamento, colapso silencioso. O pai interpretado por Mescal nunca verbaliza completamente o que sente, mas o filme sugere, de forma insistente, que há algo se desfazendo ali. Não é um colapso dramático — é um processo invisível, que só se torna claro depois.

Esse tipo de construção aparece em outros filmes recentes, como Manchester by the Sea, Nomadland ou Drive My Car. Em todos eles, o conflito não explode. Ele se infiltra.

O ritmo acompanha essa lógica. Aftersun não conduz o espectador por uma sequência de acontecimentos. Ele exige permanência. As cenas se prolongam, o silêncio ganha função, e a ausência de resolução deixa de ser falha para se tornar proposta. Não se trata de “lentidão”, mas de outro tipo de construção de sentido.

Hoje, esse modelo deixou de ser exceção. Filmes como Past Lives, de Celine Song, ou The Worst Person in the World, de Joachim Trier, operam dentro dessa mesma lógica: menos guiados por trama, mais por estado emocional, memória e percepção.

O que vem a seguir já começa a se desenhar. O cinema indie tende a avançar ainda mais na mistura de formas — incorporando elementos de gênero sem abrir mão dessa base sensorial —, ao mesmo tempo em que se integra ao streaming sem perder o percurso pelos festivais. E, talvez mais importante, reforça um movimento em que o nome do diretor volta a ser central como assinatura.

Aftersun não inaugura essa mudança, mas a torna visível. Ele mostra que o cinema independente deixou de tentar competir com o mainstream nos mesmos termos. Não é mais uma alternativa menor. É um outro sistema.

Menos interessado em contar uma história de forma eficiente.
Mais interessado em entender como uma história permanece — mesmo quando nunca foi completamente dita.

Onde ver: disponível em streaming no MUBI e também para aluguel/compra em plataformas digitais como Apple TV e Amazon Prime Video.