Pléthore não nasce de uma cena evidente, nem de um gesto inaugural fácil de localizar. O que se forma, em Lyon,na França, ao longo da segunda metade dos anos 2010, é um núcleo de produtores e músicos que compartilham uma mesma inquietação: como fazer música eletrônica depois da saturação do que eles mesmos haviam bombado – e acabou saindo do controle.
Antes de Digital Dream, o recém-lançado álbum de estreia do Pléthore, há um rastro de EPs e experimentos dispersos — material que já apontava para duas direções muito claras e que o disco consolida com precisão: o atrito constante entre o eletrônico e o analógico, e a infiltração de uma sensibilidade pós-punk no desenho das estruturas.
Esse segundo ponto é menos óbvio à primeira escuta, mas se impõe à medida que o disco avança. Não aparece na forma de guitarras em primeiro plano ou citações diretas, mas na lógica interna das faixas. Há uma rigidez rítmica, uma insistência quase tensa nas linhas de baixo, uma economia de elementos que remete mais a bandas como Joy Division ou Wire do que à tradição expansiva da eletrônica francesa. O groove, quando existe, não relaxa — ele segura, comprime, mantém o ouvinte dentro de um campo de força.
Ao mesmo tempo, Digital Dream é atravessado por uma materialidade sonora que contraria a limpeza excessiva do digital contemporâneo. Sintetizadores analógicos — ou emulações trabalhadas como tal — aparecem com imperfeições controladas, pequenas variações de afinação, ruídos de fundo que não são apagados na mixagem. Pads que respiram, osciladores que não se estabilizam completamente, delays que deixam rastros. Esse conjunto cria uma textura viva, quase tátil, que se opõe à esterilização comum em produções feitas exclusivamente “in the box”.
A crítica francesa, em veículos como Les Inrockuptibles e Tsugi, leu o disco exatamente nessa chave: um trabalho que reintroduz fricção dentro de uma linguagem que vinha se tornando lisa demais. Não se trata de um retorno nostálgico ao analógico, mas de uma integração consciente — o digital como ferramenta de organização, o analógico como fonte de instabilidade e presença. Essa tensão estrutura o álbum inteiro.
Há também uma aproximação recorrente, feita por parte da crítica europeia, com a linhagem do ambient. A referência a Brian Eno aparece menos como citação direta e mais como ponto de partida conceitual: a ideia de música como ambiente, como espaço. Pléthore, no entanto, não se dissolve na abstração. O elemento pós-punk impede essa diluição completa. Sempre há um esqueleto rítmico, uma repetição insistente que ancora as faixas e impede que elas se tornem puramente atmosféricas.
Esse equilíbrio é um dos pontos mais destacados nas resenhas. A engenharia de som revela um nível de controle elevado — compressão usada com parcimônia, graves contidos mas firmes, e uma espacialização que sugere influência de práticas ligadas ao audiovisual e à instalação sonora. Ao mesmo tempo, há uma recusa em polir demais. O disco mantém arestas. Pequenos desvios são preservados como parte da linguagem.
Digital Dream não trabalha com picos evidentes. Não há uma faixa pensada para “resolver” o álbum ou funcionar isoladamente como hit. O que se constrói é um fluxo contínuo, sustentado por variações mínimas e transformações graduais. Motivos simples retornam com pequenas alterações de timbre, posição ou densidade. Essa repetição transformativa — mais próxima de uma lógica minimalista do que da música de pista — é onde o disco encontra sua identidade.
Nesse sentido, a presença do pós-punk volta a ser decisiva. Não como estética superficial, mas como ética de construção: reduzir, tensionar, insistir. Evitar excesso de informação mesmo dentro de um universo sonoro potencialmente ilimitado. Trabalhar com o que é necessário e explorar até o limite.
Biograficamente, isso dialoga com a formação dos integrantes, que transitam entre música, design de som e projetos visuais. Há uma compreensão do som como elemento espacial, quase arquitetônico. Digital Dream funciona nesse registro: não apenas como sequência de faixas, mas como ambiente contínuo, onde cada elemento ocupa um lugar preciso e interage com o conjunto.
O resultado é um disco que se afirma menos pelo impacto imediato e mais pela coerência interna. A fusão entre eletrônico e analógico não aparece como efeito, mas como fundamento. A presença do pós-punk não é decorativa, é estrutural. E é dessa combinação — tensão, matéria, contenção — que surge a identidade de Pléthore.
