Laboratório Pop

A Arca de Gaspar Noé acolhe as feras de Cannes

18 maio 2019 / Sem comentários / em Cinema


Rodrigo Fonseca
Alvo de controvérsia em todas as suas participações em festivais do mundo, o franco-argentino Gaspar Noé levou à Midnight Movies de Cannes, na 72ª edição do evento francês, um tributo à metafísica de Carl T. Dreyer e de toda a linhagem do horror psicológico que resgata sua velha e boa forma como um produtor de imagens potentes: “Lux AEterna”, com Béatrice Dalle e a sempre genial Charlotte Gainsbourg em meio a uma discussão sobre bruxaria, medievalismo da moral e sexo. Construído como uma mescla de colagem de arquivos, encenação e jogral com luzes estroboscópicas, o novo longa-metragem do realizador de “Clímax” é uma ode à força feminina e ao empoderamento das mulheres nos embates de gênero. O Real invade sua forma de narrar, agora, a partir de um uso de tela dupla, onde suas protagonistas falam sobre desejo e sobre fragilidades e ignorâncias dos homens.
“Chega de dizerem por aí que eu manipulo isso, que manipulo aquilo. Quero investir agora na narrativa onde o real aparece em seu estado bruto, para que ninguém possa me acusar de fazer trucagens, de ser sexista, do que for”, disse Noé ao LabPop em um encontro em Paris, uma semana antes de sua vinda para a América do Sul. “Tem uma estética documental que vem ditando tendências na internet, em vídeos que carregam uma marca de expressão muito potente da juventude. É uma exceção num momento em que o cinema é dominado por produtos massificados que têm por objetivo gerar satisfação. Um cara que não se encaixa nessa medida de prazer, como eu, é visto como uma exceção torta. Preciso buscar meios de me expressar”.
O encontro parisiense com Noé se deu durante o 21º Rendez-vous Avec Le Cinéma Français (encontro anual promovido pela Unifrance, o órgão de difusão da produção audiovisual francófona no mundo), entre 17 e 21 de janeiro. Ali, numa mesa redonda, Noé abriu uma reflexão sobre as inquietudes da juventude. Semanas depois, ele veio ao Rio para lançar “Clímax”. “Falar de jovens ainda é falar de excesso. Há uma radicalidade generalizada relativa ao culto à festa como socialização, ao consumo de drogas… O excesso é químico, eletrônico. Isso é global. O que há de diferente na juventude da França é que, entre nós, o cinema é um objeto de culto de todos, desde a mais tenra idade, o que transforma a cinefilia em uma prática juvenil, na busca da liberdade pelas vias da arte”, diz o diretor de “Irreversível” (2002), um thriller sobre um estupro, narrado de trás pra frente, tornou-se “O” filme-escândalo da primeira metade dos anos 2000.

De lá pra cá, ele filmou pouco, apostando mais em videoclipes e experimentos de música e dança, mas viu os poucos longas-metragens que rodou – “Viagem alucinante”, de 2009, e “Love, produzido pelo brasileiro Rodrigo Teixeira, em 2015 – tornarem-se objetos de debate… e de culto, por sua ousadia formal. “Clímax” vai pelo mesmo caminho. Doses fartas de sexo, sempre retratado em cenas tórridas, violência (física e verbal) e uma estética taquicárdica, no qual a câmera e a edição convulsionam: tem tudo isso nesta mistura de terror, música e filme catástrofe acompanha uma longa noite de loucura de um grupo de jovens que, durante uma festa, entram num transe paranoico regado a LSD. Agora, “Lux AEterna” resgata o que havia de mais adulto em suas reflexões de início de carreira.
Foi dia de “Port Authority” na seção Un Certain Regard: filme produzido por Rodrigo Teixeira. A RT Features anda produzindo filmes que fazem diferença nas telas… na vida…por seu olhar sociológico e por sua sua força de revisão do trágico. Mas poucos dos filmes recentes de Rodrigo Abreu Teixeira pós “Call Me By Your Name tem a potência lírica de “PORT AUTHORITHY”, destaque do dia na Un Certain Regard” e em Cannes como um todo. Sua realizadora filma dança com a fome de registro de uma realidade de inclusão com uma poesia semidoc bem próxima do que Bob Fosse usou nos estudos de “ALL THAT JAZZ” para os ensaios de seu balé de morte. Só que a dança em questão aqui é de vida. Estreia segura para Danielle Lessovitz, que dilui os distanciamentos da alteridade num filme sobre equalização de diferenças: Paul cai de amores por Wye, uma trans, sem compreender as delicadezas de seu corpo e de sua alma. A educação sentimental resvala na coregrafia do verbo “perder”. Leyna Bloom torna Wye uma tormenta: é a liquidez que arrasa tudo. Cannes ficou mais bonito com ela.

Takashi Miike divertiu Cannes na noite de sexta com “First love”, um divertidíssimo thriller de ação, com cenas animadas. O Quentin Tarantino do Japão levou à Quinzena dos Realizadores a saga de um atípico casal formado por um pugilista portador de um tumor terminal e uma jovem com delírios persecutórios. Uma guerra de gangues une esses dois.

Neste domingo, a Quinzena vai receber um de seus longas mais esperados, sobretudo depois que um de seus protagonistas, o inglês Robert Pattinson, foi anunciado como o novo Batman: o suspense psicológico “The Lighthouse”. No filme, o astro da franquia “Saga Crepúsculo”, já confirmado para viver Bruce Wayne em “The Batman” (2020), e Willem Dafoe estão ligados a um farol que abriga mistérios.

No dia 25 de maio, o festival chega ao fim, com a entrega de prêmios e a projeção do filme de encerramento: a comédia motivacional “Hors norme”, com Reda Kateb e Vincent Cassel.

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