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Crippled Black Phoenix faz canções para o fim dos tempos

Novo álbum tem momentos que lembram o que o Sisters of Mercy fez de melhor

por Robert Halfoun

Criado em 2004 por Justin Greaves, ex-baterista de grupos como Iron Monkey e Electric Wizard, o CBP não é uma banda, é um coletivo que surge a partir da ideia de reunir músicos de diferentes origens para construir o que o próprio Greaves chama de “endtime ballads” — canções do fim dos tempos.

Ele não fala de gênero, mas de sensação: a de que as canções estãos sempre à beira do colapso. Não importa o que elas tragam dentro delas, post-rock, folk sombrio, rock progressivo, psicodelia e até trip-hop, sem jamais se comprometer com nenhum deles de forma definitiva.

Por isso, dentro do circuito rock/indie, o Crippled Black Phoenix ocupa um lugar raro. Não é exatamente cult — embora tenha esse público. Não é mainstream — mas até poderia ser. É uma banda que opera na zona de fricção entre ambição estética e a clara intensão de causar um desgaste emocional.

A crítica especializada frequentemente aponta a dificuldade de enquadrar o grupo — “complexo”, “inclassificável”, “mutante” — como parte essencial da experiência.

Ao mesmo tempo, há um reconhecimento consistente da sua capacidade de absorver influências (de Pink Floyd a Godspeed You! Black Emperor) e devolvê-las transformadas. O que sustenta isso é uma insistente construção atmosférica. A música do CBP parece ficar parada no mesmo lugar, criando densidade, aprisionando o ouvinte.

No recém-lançado Sceaduhelm, os elementos clássicos do CBP permanecem: colagem de samples, camadas cinematográficas, referências difusas – gótico, pós-punk, shoegaze, dream pop são as mais presentes num álbum com momentos bem interessantes que lembram o que o Sisters Of Mercy fez de melhor.

Está claro também que o disco foi concebido como um fluxo único. As faixas não funcionam como unidades isoladas; elas se encadeiam com pequenas passagens faladas, trechos de transição e mudanças graduais de densidade. A impressão é de atravessar um mesmo estado que se altera aos poucos.

A alternância de vozes faz parte dessa construção. Belinda Kordic, Ryan Patterson e Justin Storms entram em momentos distintos, cada um com um registro próprio.

Essa troca muda o ponto de escuta dentro do mesmo percurso sem criar um contraste evidente.

A crítica, afinal, tem razão ao falar de complexidade. O que mais importa, no entanto, é a experimentação latente fundamental no universo da música alternativa. Ao vivo, diga-se, é uma cacetada.