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Deary nasce fazendo shoegaze e dream pop como gente grande

Nós avisamos: agora Trio inglês lança Birding, álbum de estreia ultra bem recebido pela crítica

por Robert Halfoun

Birding é o termo que define a observação de pássaros. Mas dela, vem a busca por eles. Andar pela floresta, absolutamente em silêncio, num movimento primeiro de escuta, depois de afinação do olhar até encontrar as aves entre os galhos e as folhas.

No fundo, o encontro vale muito, o que mais importa, porém, é a viagem durante o caminho, o tanto de coisa que passa pela cabeça como nuvens fluidas que vão tomando forma.

Birding também é o nome do disco de estreia do Deary, o trio inglês do qual chamamos atenção aqui meses atrás – e que ressurge agora com um primeiro álbum raro que soa como um trabalho já plenamente resolvido.

Formado em Londres por Dottie Cockram (voz e guitarra) e Ben Easton (guitarra) — posteriormente ampliado com o baterista Harry Catchpole — o grupo nasce de um ambiente típico do indie recente: isolamento, trocas digitais e um processo criativo amadurecido durante os anos de pandemia.

Antes do álbum, vieram EPs que já indicavam direção estética e conexões relevantes: colaboração com Slowdive, via Simon Scott, e remix de estreia por Saint Etienne — sinais de legitimação dentro de um circuito que valoriza linhagem e continuidade. O salto para Birding, lançado pelo selo Bella Union (fundado por integrantes do Cocteau Twins), consolida essa passagem de promessa para linguagem autoral.

Há algo estrutural na música do Deary: ela não parte da explosão, mas da ocupação do espaço. A banda se ancora em três pilares — shoegaze, dream pop e trip hop —, mas trata esses elementos com uma clareza incomum para o gênero.

Em vez de esconder a voz sob camadas de distorção, Cockram a posiciona como eixo emocional, enquanto as guitarras de Easton trabalham mais como textura do que como riff. Esse equilíbrio entre densidade e legibilidade aparece como diferencial recorrente nas críticas: a banda entende como preencher o espaço sem recorrer apenas ao volume ou ao clichê do wall of sound.

A leitura crítica aponta que cada swell é intencional e cuidadosamente posicionado, sem sensação de excesso ou improviso. O disco opera a partir do conceito recorrente da observação de pássaros não como ornamento, mas como estrutura simbólica. A relação entre natureza e experiência humana, especialmente a ideia de interferência e fragilidade, atravessa as letras com discrição, sem se tornar programática.

Musicalmente, Birding evita dois riscos típicos do gênero: a opacidade total, em que o som se dissolve numa névoa indistinta, e o revivalismo literal. Há referências claras — My Bloody Valentine, Mazzy Star —, mas o disco funciona mais como reorganização dessas influências do que como colagem.

O consenso crítico é mais sólido do que entusiasmado — e isso, no caso do Deary, joga a favor. O disco é frequentemente descrito como expansivo e intencional, com destaque para a capacidade da banda de alongar ideias sem perder foco.

Também se observa um controle de dinâmica especialmente eficaz em faixas como “Alfie”, que cresce de forma gradual, sem recorrer ao clímax óbvio.

Outro ponto recorrente é a leveza e acessibilidade que o grupo traz a um gênero historicamente denso, sem diluí-lo. Em outras palavras, a gente põe o álbum para tocar e ele segue fácil. Acaba e dá vontade de colocar de novo.

O lançamento de Birding vem acompanhado de datas no Reino Unido e na Europa, consolidando o Deary como um projeto de circuito — mais próximo do crescimento orgânico do indie do que de qualquer explosão viral.

Essa presença ao vivo tende a amplificar justamente o que o disco sugere: músicas construídas por dinâmica e respiração, com potencial de ganhar peso físico fora do estúdio — especialmente em faixas como “Seabird” e “Alfie”, frequentemente citadas nas resenhas como pontos de expansão.