Laboratório Pop

Era uma vez em… Locarno

23 jul 2019 / Sem comentários / em Cinema


RODRIGO FONSECA
Ainda é temporada de verão para a indústria audiovisual dos EUA, um período de super-heróis e prosopopeias da Disney reinantes nas telas, mas default algum nenhum há de conter a vinda de “Era uma vez em Hollywood” (“Once upon a time… in Hollywood”), que estreia no circuito estadunidense nesta sexta-feira, aterrissando no Brasil no dia 15 de agosto, com fome de salas lotadas… e de futuros Oscars. Uma das estratégias do novo Quentin Tarantino para angariar o respeito de críticos e dos pagantes, após uma acidentada première em Cannes, é fazer uma projeção de gala no Festival de Locarno, que vai de 7 a 17 de agosto, na Suíça.
Na Croisette, o aclamado (e amado) cineasta passou por maus bocados e gerou polêmica em uma tumultuada coletiva de imprensa. Generoso nas risadas e em suas anedotas sobre o passado de Hollywood, Quentin Tarantino foi cortante, seco e sucinto no papo com uma horda de jornalistas para falar sobre “Era uma vez em Hollywood em Cannes, em maio, sem medo de reduzir suas respostas a “Sim” ou “Não” quando se irritava com alguma pergunta. Ao Laboratório Pop, ele falou com carinho acerca de uma de suas principais referências/citações neste mergulho nos EUA do fim dos anos 1960, em que repagina fatos. Margot Robbie, Brad Pitt e Leonardo DiCaprio estavam à mesa com o diretor.

“Trouxe o nome de Sergio Corbucci, grande diretor italiano à tona, porque ele dirigiu coisas incríveis como ‘Django’ e resolvi usá-lo como uma opção de trabalho para o ator que DiCaprio vive aqui”, disse o cineasta ao LabPop.

Entre os jornalistas que lotaram a sala da entrevistas do Palais des Festivals de Cannes, havia uma recorrente curiosidade acerca de ausência do veterano Al Pacino, que interpreta Marvin Schwarzs em “Era uma vez em Hollywood”. Incomodado com a pronúncia equivocada de seu nome, no filme, Marvin Schwarzs, agente de talentos nos EUA de 1969, faz uma citação às onomatopeias do seriado “Batman & Robin”, com Adam West e Burt Ward, ao ilustrar para seu cliente mais abalado, o astro de TV Rick Dalton em que chão ele está pisando, numa época em que “Bonanza” já é encarado como fóssil. Papel de Al Pacino, Schwarzs se perfuma de usura ao fazer piada de si mesmo com o intuito de fazer Rick se dar conta de seu vulto na história do pop. Um vulto que vinga mais na publicidade do que na grade da rede CBS: sua fama como caubói, à la Rawhide, série de revelou Clint Eastwood, é maior na venda de produtos em reclames publicitários do que nos canais de uma década de 1960 afogada em maconha, LSD e Neil Dimond. Mesmo assim, há uma nova proposta para Rick e é no exterior: brincar de almôndega no molho do spaghetti que os italianos preparam por lá, a copiar Howard Hawks e John Ford. Coliseu de vaqueiro é sela de alazão. Essa é a lição de “Era uma vez em Hollywood”, gema muito bem aparada que Quentin Jerome Tarantino exibiu em disputa pela Palma de Ouro de 2019, 25 anos depois de seu “Pulp Fiction” brilhar aqui.

De uma precisão cirúrgica no trânsito pelos tempos narrativos, “Once upon a time… in Hollywood” avassalou certezas do Festival de Cannes em relação aos códigos mais cimentados da dramaturgia ocidental desde Aristóteles e sua “Poética”. Fala-se de prêmio em muitas categorias, com destaque para Margot Robbie, etérea como a atriz e modelo Sharon Tate (morta em 1969 na lâmina de uma seita chefiada pelo maníaco Charles Mason), e para Leonardo DiCaprio. Ele encarna um astro de TV de séries de faroeste em crise, dado o ocaso de sua fama e do interesse da audiência por bangue-bangue à moda “Bonanza”. Mas o prêmio que DiCaprio pode levar deveria ser dado a Brad Pitt também, em empate: os dois se conjugam em cena. Pitt é Cliff, dublê de cuca fresca que protege o amigo. Tem violência, tem diálogos sabor Royale With Cheese e tem nostalgia. Há um desfile de citação à TV, à publicidade e ao cinema dos anos 1960, com destaque para o cineasta Sergio Cobucci (uma biografia do diretor de “Django” e “Navajo Joe” vai ser lançada na Croisette nesta quinta, por Vincent Jourdan) e o galã Ron Ely, o Tarzan de 1968. Nada que se viu no balneário francês este ano redesenha de tal forma o legado da arte audiovisual como Tarantino faz. É um painel histórico de profunda tristeza, em sua percepção da finitude. Mas há muita ironia (daquela que faz rir) em cena. DiCaprio e Pitt têm uma alquimia precisa.

“Começamos mais ou menos na mesma época e chegamos ao estrelato num período próximo, nos anos 1990”, disse DiCaprio ao elogiar o colega Pitt, cotadíssimo para concorrer ao Oscar de melhor coadjuvante por seu desempenho.

E há nele uma reflexão transcendente sobre a ética dos caubóis. Nos tempos cinematográficos em que o faroeste era a Ilíada do mundo, ou seja, a narrativa constitutiva dos valores modernos, com sua noção de Bem e de Mal expressa no conceito de mocinhos vs. bandidos, Hollywood criou um cógito (quase cartesiano) segundo o qual o western é igual a imensidão espacial, bangue-bangue é igual a terras inóspitas imensas a serem desbravadas. Assim profetizaram os Homeros do filão: John Ford e Howard Hawks. Contudo, a partir de 1950, quando cicatrizes da Segunda Guerra arranharam a representação clássica do escapismo heróico e o politicamente correto engatinhou seus primeiros passeios pelas telas, realizadores como Anthony Mann (em Winchester 73 e em E o Sangue Semeou a Terra) subverteram esse cartesianismo ao criar o chamado western psicológico onde as pradarias mais perigosas eram aquelas esculpidas na mente dos próprios caubóis, duelo após duelo. Dali pra diante, virou moda uma modalidade mais huis clos do faroeste, de ambientação fechada, que deu mais valor às inquietações existenciais de seus protagonistas, tridimensionalizando seus sentimentos, humanizando-os, o que foi fundamental tanto para o spaghetti de italianos como Sergio Leone (O Bom, O Mau e O Feio), quanto para o cinemanovismo de americanos como Arthur Penn (Pequeno Grande Homem). E é a essa corrente de Reforma… na forma… no ethos… na ética… que as cenas de western de “Era uma vez em Hollywood” se filia, como já foram “Django livre” (2012) e “Os oito odiados” (2015). Aqui, a voltagem de criatividade e de provocação é ainda maior do que a deles dois.

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