Laboratório Pop

Fantasmas redivivos das Fontainhas transbordam na luz de Locarno

14 ago 2019 / Sem comentários / em Cinema


Rodrigo Fonseca
Com um melodrama inédito (“To the Ends of the Earth”, do mestre nipônico do terror e da ficção científica Kiyoshi Kurosawa) agendado como sua atração de encerramento, neste sábado, o 72º Festival de Locarno reservou quatro títulos para o desfecho de sua competição internacional oficial de longas-metragens de 2019: “Cat in the wall”, de Mina Mileva e Vesela Kazakova (Bulgária), “During revolution”, de Maya Khoury (Síria); “The science of fictions”, de Yosep Anggi Noen; e “Longa noite”, de Eloy Enciso (Espanha). Ninguém sabe ainda o que o júri presidido pela diretora francesa Catherine Breillat (no comando de um time formado pela cineasta alemã Valeska Grisebach, a produtora holandesa Ilse Hughan, o ator argentino Nahuel Pérez Biscayart, o crítico italiano Emiliano Morreale) vão premiar, mas a aposta em torno de “Vitalina Varela”, o novo Pedro Costa, é alta. A badalação em torno do esperadíssimo novo projeto do realizador português, hoje com 60 anos e famoso por produções como “No quarto de Vanda” (2000), aumentou após a exibição do filme, nesta quarta. Continuação de um universo que vem sendo desenhado pelo cineasta lisboeta desde os anos 1990, em especial pelos cultuados “Juventude em marcha” (2006) e “Cavalo Dinheiro” (prêmio de melhor direção em Locarno, em 2014), o novo longa narra o périplo de chegada à Europa da cabo-verdiana Vitalina, que esperou um quarto de século pela chance de dar seguimento à sua vida fora d’África. A personagem cria caminhos para o diretor explorar a condição fantasmagórica dos imigrantes africanos ao bairro das Fontainhas. Em sua vinda ao Brasil, em 2010, para uma retrospectiva de seu cinema, o realizador disse que a região é uma terra de “pessoas que em lugar de História têm apenas a memória, sem fatos, sem datas, sem local”. Trata-se de um subúrbio já demolido, onde ele escavou sua estética, que hoje impressionou a crítica de Locarno pela fotografia de Leonardo Simões.
“O cinema se acanhou com medo de perder. Perda é algo muito próximo do encontro quando se trata de arte: perdemos para descobrir o que não conhecemos. Mas para o mercado, que quantifica ‘Tempo’ e ‘Espaço’, as medidas da descoberta só valem se puderem ser quantificadas, o que não vale para meus irmãos cabo-verdianos lá das Fontainhas. Eles habitam um limbo sem História, aquela com H maiúsculo, pois aquela cultura na qual se encontram é mediada pelos colonizadores, fabricada pelos brancos que os escravizaram”, disse Costa num papo por telefone de 2015, quando ganhou o troféu Calunga de melhor direção no Cine PE, numa época em que editava um livro com suas pesquisas e ideias, chamado “100.000 cigarros”. Meu cinema rodeia este mundo de loucos atrás de olhos lúcidos”.
Em 2018, o pesquisador Carlos Melo Ferreira lançou um precioso livro sobre a obra de Costa, batizado com o nome do cineasta. É um mergulho numa das filmografias de maior potência formal dos tempos atuais.
Na seara de retrospectivas, Locarno contabilizou lotação máxima com uma seleção de 47 produções ligadas à representação das populações negras, chamada Black Light, que deu espaço para “Abolição”, de Zózimo Bulbul (1988), e para “Amor maldito”, de Adélia Sampaio (1984). A historiadora Janaína Oliveira é uma das responsáveis pelo impecável catálogo dessa mostra editado pelo festival suíço.

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