Quando Nick Drake nos deixou em novembro de 1974, aos 26 anos, depois de uma overdose de antidepressivos, ele era praticamente um artista desconhecido fora de um círculo bem restrito. Tinha lançado três discos — Five Leaves Left (1969), Bryter Layter (1971) e Pink Moon (1972) — que passaram sem repercussão relevante.
O reconhecimento veio muito depois, já nos anos 1990, quando sua música calma e bela começou a circular novamente e passou a ser entendida como um ponto de inflexão e grande referência dentro do folk.
Em Pink Moon, ele elimina praticamente qualquer camada externa à canção. Voz, violão e quase nada além disso. Sem arranjos expansivos, sem produção que preencha espaços. Essa redução radical expõe a estrutura da música e redefine uma forma de fazer e escutar o folk.
José González bebe diretamente dessa fonte em Against the Dying of the Light. As canções, calmas e belas como as de Drake, se organizam com poucos elementos, mas com alto grau de precisão. Em “Fading Lines”, o dedilhado se mantém constante, enquanto pequenas variações de acento alteram a percepção do ritmo. Em “Ashes to Silence”, as pausas passam a estruturar o tempo da música. Não há busca por clímax ou mudança de escala. O interesse está na forma como o material se sustenta ao longo da execução — e também em como detalhes sutis, como o som das unhas nas cordas, temperam tudo com algo ligeiramente percussivo.
A recepção da crítica global tem sido consistente nessa leitura. Fala-se em controle e recusa de soluções evidentes; capacidade de manter tensão com poucos elementos; decisão de não expandir os arranjos, mesmo quando isso seria esperado.
A comparação com Drake está por toda parte, mas com distinção técnica. O inglês frequentemente operava com instabilidade rítmica e harmônica. González trabalha com repetição e regularidade. O resultado é menos instável e mais controlado, embora parta exatamente da mesma base de redução, como se estivesse tocando na sala da sua casa.
O momento em que o disco é lançado ajuda a entender sua leitura. Num mundo marcado por excesso de estímulo e consumo fragmentado, a música de González segue outra lógica. Traz tranquilidade e sugere continuidade — isto é, não há pressa para escutá-la; ao contrário.
José González nasceu em Gotemburgo, na Suécia, e é filho de argentinos exilados pela ditadura. Desde o início da carreira solo, construiu sua música a partir do violão de nylon, com os mesmos padrões estruturais definidos que ouvimos em Against the Dying of the Light. A diferença agora é que a linguagem foi claramente depurada e parece ter chegado ao auge.
Estamos, afinal, diante do tipo raro de álbum daqueles que dá vontade de colocar para tocar novamente assim que termina a última faixa.
