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Não se renda às más línguas: ‘Fênix Negra’ é pra ser visto no cinema

25 jun 2019 / Sem comentários / em Cinema


RODRIGO FONSECA
Visto por 1,5 milhão de pagantes no Brasil, “Fênix Negra”, o mais recente (e, quiçá, último) dos filmes da franquia “X-Men”, vem sendo alvo de uma campanha difamatória que almeja levar sua passagem pelo circuito a um ocaso injustificável. Nos EUA, sua bilheteria arranha US$ 233 milhões. Entre os filmes malfadados do verão hollywoodiano de 2019, como “MIB: Homens de Preto – Internacional” e o novo “Shaft”, ele é o melhor. E deve ser visto na telona.

Produtor prolífico, indicado ao Oscar por “Perdido em Marte” (2015), o inglês Simon Kinberg, cineasta de primeira viagem em longas-metragens, assumiu a direção do sétimo (e dito último) filme da franquia “X-Men” (2000-2019), consagrada com uma arrecadação comercial estimada em US$ 2,8 bilhões, com a tarefa de dar vida a uma das mais populares sagas da história dos quadrinhos: “A Fênix Negra” (1980). Com desenho de John Byrne e roteiro de Chris Claremont, a história de como a mutante psiônica Jean Grey se transforma, após ser possuída por uma energia demiúrgica, modificou os códigos de escrita das HQs, a partir de uma mistura do épico com o existencialismo, sempre à luz da questão da lealdade. Esta última palavra, lealdade, que sempre foi objeto de estudo nos filmes “X”, desde o primeiro, dirigido há 19 anos por Bryan Singer, alcança aqui sua metafísica mais lírica, sob o comando meticuloso de Kinberg. Apesar de um começo trôpego, quase sem ritmo, num lugar comum de aventura no espaço, o mais recente capítulo da jornada das X-Women e dos Homens-X em prol da tolerância arrebata o espectador pela maneira sinuosa como seu realizador, mesmo sem muita experiência nesse ofício, administra o suspense. É uma administração que valoriza toda a argamassa marvete que vem dos gibis dos anos 1980, mesmo sem alguns dos heróis originais (nada de Colossus ou de Wolverine), e que se afina com os pleitos de inclusão e empoderamento dos novos tempos. E tem em si o diferencial de magma de contar com um Michael Fassbender mais inspirado do que de costume, uma vez mais sob o elmo de Magneto, o mestre do magnestismo. Que falta faz Hugh Jackman com Fassbender em cena? Nenhuma.

Mas há aspectos a serem decantados nesta narrativa que assume como eixo a bagunça no coração de Jean Grey (a ótima Sophie Turner), depois do contágio: o encontro com a força estelar chamada Fênix potencializa suas inquietações, levando a poderosa paranormal a dar lugar a uma personalidade maléfica. A vilania, contudo, não fica nela (dados os conflitos de consciência que tem), e sim em Vuk, um ser alienígena que almeja o controle da tal Fênix e rouba para si o corpo de uma terrena… no caso o de uma vítrea Jessica Chastain. É ela quem vai quizilar o culto que os X-Men do Professor Charles Xavier (James McAvoy, em plenitude de sua maturidade) fazem à harmonia.

Entre os pontos de decantação, há o fato, discreto, de que, no original, em Inglês, o título do filme, “Dark Phoenix”, não usa o selo “X-Men” (que entrou na tradução brasileira: “X-Men: Fênix Negra”). Suprimir o nome é um sinal de desapego, como se houvesse o interesse por uma ruptura com a tradição: com a venda dos estúdios 20th Century Fox à Disney, tudo deve mudar na fraquia. Estima-se que seu tom sombrio vá ser o primeiro sacrifício dessa imolação comercial, decretando o fim de uma era que só começou pelo empenho do diretor Richard Donner, o midas por trás de “Máquina Mortífera” (1997) e do “Superman” de 1978. Foi ele quem deu à Fox a ideia de filmar a rotina da Escola para Jovens Superdotados do Professor Xavier, estimulado pelo sucesso do desenho animado deles, de 1992 (aqui chegado só em 94). Foi a mulher do quase nonagenário Richard, a produtora Lauren Shuler Donner, quem deu forma (e rentabilidade) à cinessérie, nela imprimindo um pleito inclusivo antirracismo, que rendeu pelo menos duas obras-primas: o segundo longa, de 2003, e “Primeira Classe” (2011). Mas é hora de mudanças.

Filhos do Átomo, os discípulos de Charles Xavier, criados nas HQs por Stan Lee em 1963, tornaram-se cinema como Filhos da Geração DVD. A partir do final dos anos 1990, quando a tecnologia informática permitiu o advento das bolachinhas chamadas de Digital Versatile Disc, toda a memória fílmica produzida no mundo, até aquele momento, encontrou um escoamento (e um veio de preservação) biblioteconômico, que nos permitiu não apenas acesso a cópias, por exemplo, de uma comédia de Harold Lloyd (1893-1971) feita em 1919, mas também a toda uma fortuna crítica (mais contemporânea) sobre ela: os chamado extras. Diferentes do que se viveu na era VHS, todo DVD era um casamento de entretenimento com aula de História, o que alfabetizou uma nova linhagem de cinéfilos e reeducou o olhar dos mais velhos, criando, em ambos, uma percepção de que a realidade – do Presente e do Passado, sobretudo – é mediatizada, ou seja, existe o passado real, concreto, e existe o passado que o cinema nos ensinou. Nossa ideia da Chicago dos gângsters não é a Chicago dos documentos, calcada em fatos: nossa Chicago é a de Brian De Palma em “Os Intocáveis”. Ou seja… verdade dá lugar a simulacros. E simulacros produzem simulações da vida, ou seja, uma meta-vida, onde imagem não é só um corredor que nos leva a experiências sensíveis: imagem é a experiência em si. E o novo X-Men é uma delas. Das melhores.

O que a práxis do simulacro produziu foi um meta-cinema. Veja, por exemplo, o caso de alguns de seus maiores artesões. Pedro Almodóvar (“Fale com Ela”) e Wong Kar-Wai (“Amor à Flor da Pele”) criaram com base em seu mergulho em mestres do cinema e do folhetim (Vincente Minelli e Douglas Sirk, sobretudo) uma ideia de meta-melodrama, ou seja, uma reflexão sobre os sofrimentos do querer calcados não em registros do Real, mas em noções de amar, sofrer, perder e reconquistar que o Cinema ensinou a eles. Já Quentin Jerome Tarantino (“Bastardos Inglórios”) passou os últimos anos dedicado à lapidação do que podemos chamar de meta-melodrama: os geniais “Django Livre” (2012) e “Os Oito Odiados” (2015) não são apreensões reais de questões do Oeste “de verdade”, mas sim do Oeste de papelão que Hollywood e os spaghetti italianos nos legaram. São “mentirinhas” erguidas sobre “mentirinhas”, ficção da ficção. Simulacros.
Embora não tenha – ainda – o peso destes cineastas, Kinberg dá ao canto de cisne dos X-Men a instância do meta: não o meta-quadrinho, mas o meta-filme. Por um significativo tempo de sua duração de 1h53 minutos, “X-Men: Fênix Negra” é mais um thriller de viradas vertiginosas sobre responsabilidades do que um filme de super-herói clássico. E o talento de Sophie Turner é essencial para isso. Temos uma mulher fraturada, em busca de si mesmo. Só que essa fratura esbanja destruição por onde passa. E temos um terrorista sem nada a perder… só o quinhão recém-esculpido de sua humanidade… no caso, Magneto, à cata dela, por vingança, uma revanche que deve ser conhecida na telona. Fassbender, numa atuação magistral, dá a seu personagem uma dimensão trágica shakespeariana, digna da despedida de uma série de longas que redefiniu a cultura pop nas telas. No Brasil, Alexandre Marconato dubla o ator.
Atenção para a ótima Kota Eberhardt, que vive Selene, a namoradinha de Magneto. É uma aparição que promete.

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