Cultura Pop, Hot, Música

O poder da memória afetiva

A última nave da Xuxa confirma o que a Festa Ploc descobriu há mais de 20 anos

Por Luciano Vianna

Milhares de adultos cantando músicas infantis. Gente de 40, 50 e até 60 anos chorando, sorrindo e voltando à infância por algumas horas. O último show da Xuxa não foi apenas um espetáculo. Foi uma demonstração do poder que a memória afetiva exerce sobre as nossas vidas.

Quem esteve no Nubank Park, em São Paulo, no último sábado, ou acompanhou as imagens pelas redes sociais, provavelmente se emocionou com uma cena rara: uma multidão de adultos cantando “Ilariê”, “Lua de Cristal” e tantos outros sucessos que marcaram uma geração.

Para alguns, pode parecer estranho. Mas não há absolutamente nada de estranho nisso.

Vivemos numa sociedade que valoriza tanto o novo que, muitas vezes, esquece a importância daquilo que nos formou. A infância não desaparece quando completamos 18 anos. Ela permanece guardada em algum lugar da nossa memória, esperando apenas um cheiro, uma fotografia ou uma música para despertar.

A ciência explica esse fenômeno. A nostalgia, quando vivida de forma saudável, produz sentimentos de pertencimento, conforto emocional, fortalecimento da identidade e até redução da ansiedade. Não se trata de viver preso ao passado, mas de reconhecer a própria trajetória.

Quando aquelas milhares de pessoas cantavam junto com a Xuxa, não estavam apenas lembrando um programa de televisão ou um disco.

Estavam reencontrando seus pais, seus irmãos, seus colegas de escola, os aniversários, as férias, as tardes diante da TV e uma época em que a vida parecia menos complicada.

A música é apenas o gatilho. A emoção vem das lembranças.

Talvez seja exatamente por isso que o mercado do entretenimento tenha descoberto, nos últimos anos, o enorme potencial dos eventos nostálgicos. Turnês comemorativas, reuniões de bandas, festivais retrô e celebrações de décadas passadas passaram a ocupar um espaço cada vez maior na agenda cultural.

Mas existe um detalhe importante nessa história.

No Brasil, 22 anos atrás, muito antes de a nostalgia virar tendência, a Festa Ploc – que faz uma edição especial com mais de dez shows no Rio de Janeiro dia 29 de agosto – já havia entendido que as pessoas não queriam apenas ouvir músicas antigas.

Queriam reviver emoções.

Há mais de duas décadas, a Festa Ploc reúne artistas, DJs e um público apaixonado para celebrar os anos 80 e 90 de uma maneira que vai muito além do entretenimento. Quem frequenta o evento sabe que não é raro ver pessoas chorando durante os shows, abraçando amigos ou simplesmente fechando os olhos enquanto cantam músicas que fazem parte de sua história.

Ali não existe apenas diversão.

Existe catarse.

Existe acolhimento.

Existe memória compartilhada.

Ao longo desses mais de vinte anos e com um público estimado em mais de 5 milhões de pessoas, a Festa Ploc ajudou a consolidar no Brasil um formato de evento que hoje se tornou comum: grandes celebrações da memória afetiva, em que o público deixa de ser apenas espectador para viver novamente momentos importantes da própria vida.

É por isso que o sucesso do último show da Xuxa faz tanto sentido.

Ele confirma que a nostalgia deixou de ser vista como saudosismo vazio para ser reconhecida como uma poderosa experiência emocional.

Num mundo acelerado, hiperconectado e frequentemente marcado pela ansiedade, revisitar boas lembranças pode ser uma forma de equilíbrio. Pode ser um reencontro consigo mesmo.

Não há vergonha alguma em um adulto cantar uma música infantil.

Vergonha seria perder a capacidade de se emocionar.

Se a despedida da nave da Xuxa emocionou tanta gente, é porque ela nos lembrou de algo essencial: crescer não significa abandonar quem fomos.

Significa carregar essa criança conosco.

E talvez seja justamente esse o segredo dos grandes eventos nostálgicos — da despedida de Xuxa à trajetória pioneira da Festa Ploc. Eles nos mostram que o passado não precisa ser um lugar para morar.

Mas pode, de vez em quando, ser um excelente lugar para visitar.

Porque algumas músicas não apenas atravessam gerações.

Elas atravessam a nossa própria vida.