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‘Sinais’ autorais: tem Shyamalan hoje na TV

3 jul 2019 / Sem comentários / em Cinema


Rodrigo Fonseca
Às 2h20 desta madrugada, na esteira do “Programa do Bial” e da série “Ressurreição”, a TV Globo vai exibir “Sinais” (“Signs”, 2002), produção de US$ 72 milhões que arrecadou US$ 408 milhões nas bilheterias, consagrando M. Night Shyamalan como um dos pilares da fantasia e do suspense no século XXI. Dublado no Brasil por Julio Chaves, Mel Gibson vive um sacerdote que entra em crise com a fé após a morte de sua mulher, mas que se vê numa hecatombe sentimental ainda mais grave ao ver sua fazenda cercada por ETs. Joaquin Phoenix vive seu irmão: um craque do beisebol também fraturado afetivamente. Fratura é a palavra essencial para o entendimento da obra de Shyamalan, que mobilizou os cinemas, no início deste ano, com “Vidro”. Nele, gastou US$ 20 milhões, mas arrecadou US$ 246 milhões.

Autocrítico, debochado com as convenções do universo nerd e preocupado com a carpintaria da ilusão, “Glass” (literalmente “Vidro”, em Português) driblou a hipótese de trombar com o fracasso dada a divergência de pontos de vista que M. Night Shyamalan gera, sobretudo num projeto que se (e o) aproxima de Brian De Palma. Da mesma forma como o pai de Carlito Brigante e Carrie, o indiano fissurado pela Filadélfia assume a mentira como tema, a simulação, a aparência. Na verdade, existe a transgressão. Estamos diante de uma continuação tardia de “Corpo Fechado” (“Unbreakable”, 2000), formando um díptico com “Fragmentado”, fenômeno popular de 2017. E, nele, o diretor se recicla e oxigena um sistema cinematográfico sofisticadíssimo de reflexão sobre a fábula.


Reinvenção é uma arte na qual Shyamalan é um mestre. Depois de ter caído em desgraça com o injustiçado “A Dama na Água” (2006), ele amargou uma década de rejeições até se recriar a partir da televisão, com um seriado com aura cult “Wayward Pines”, redescobrindo o prazer de filmar com baixíssimo orçamento e total liberdade, o que foi sua realidade em “A Visita” (2015), um exercício autoralíssimo da carpintaria do assombro, com o qual ele redescobriu as manhas do terror a partir das quais havia despontado para o estrelato, em 1999, com” O Sexto Sentido”. De volta às veredas do medo na plenitude de sua potência estética, ele se reencontrou e recuperou a tarimba de abocanhar gordas bilheterias, como comprova o sucesso popular de seu novo e soberbo trabalho: um thriller de suspense à moda dos anos 1970 (à la “Sisters”, do De Palma) que tem em Sarah Paulson (magnífica em sua atuação atônita e sussurrada) seu trunfo. Shyamalan se volta uma vez mais a uma práxis cinemática no padrão Hitchcock, no que envolve a opção por sugerir em vez de escancarar, de criar clima ao invés de apelar para um grafismo pornográfico da violência. Viradas de roteiro – o trunfo de seus primeiros filmes – voltam aqui, possantes, famintas por queixos caídos. Mas é na imagem que ele encontra o diferencial de narrativa e de sedução, ao fazer um filme sobre (e não de) super-heróis todo calcado em closes, inclusive nas sequências de luta, filmadas em primeira pessoa, com um enquadramento apolíneo.

O desempenho acachapante de James McAvoy, o jovem Professor Xavier de X-Men, é um ás e um chamariz. Mas a estrela do filme é a direção, em sua ouriversaria no emprego dos códigos do suspense, demarcando uma espécie de terceiro hemisfério na trajetória do cineasta, dando prosseguimento à saga da Filadélfia, seu microcosmos. Nada é mais cotidiano do que a circunstância na qual um trio de jovens é capturada pelo personagem de McAvoy, após este se safar da Lei em “Fragmentado”. Só que, aqui, David Dunn (Bruce Willis, grisalho e taciturno) vai a seu encalço, esbarrando com a figura de Mr. Glass, o Sr. Vidro, ou Elijah, papel padrão Lex Luthor que dá a Samuel L. Jackson a chance de brilhar em vários momentos, menos quando engolido por Sarah.

Ela é a psiquiatra especializada numa síndrome de “super-heroísmo” que junta os três em um sanatório, espaço onde o longa ganha contornos de filme de prisão. Parece “THX 1138” (1971), mas almeja um outro caminho, menos metafísico, mais voltado a um debate moral. Desde “A vila” (2004), sua obra-prima, Shyamalan passou a se interessar sobre a gênese da vilania e seu posicionamento estratégico no planisfério das narrativas. Mas, aqui, ele entra no campo das fake news, discutindo a arte do engano como prática de Poder. A loucura, em Shyamalan, não é a negação da verdade, mas a subversão da mentira.

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