Laboratório Pop

‘Um lugar silencioso’ faz ruído no Telecine

7 maio 2019 / Sem comentários / em Cinema


Rodrigo Fonseca
Fotografado a partir de uma mirada feminina (as lentes da dinamarquesa Charlotte Bruus Christensen), “Um lugar silencioso”, que será exibido nesta terça-feira (7 de maio), às 20h20, no Telecine Premium, é um filme de monstro, tendência da moda vide “A forma da água” e “Border”, mas é um filme de monstro artaudiano. Autor de “O teatro e seu duplo”, Antonin Artaud (1896-1946) assume o olhar como a metonímia da parte pelo todo: é na troca de olhos que a vida vira o espetáculo da descoberta, da surpresa. Clamava ele: “Restitua ao meu espírito a reunião das forças, a coesão que lhe falta, a constância da tensão, a consistência de sua própria substância. (E tudo isso é tão pouco)”. Operando aqui como astro e diretor, o surpreendente John Krasisnki interpreta seu papel desta forma que falava Artaud nesta produção de US$ 17 milhões: busca a consistência, mas com seus olhos atonitamente abertos, escancarando cicatrizes de ausências, de castrações afetivas. E faz isso sob a forma de um thriller de horror cuja eficiência que vem lhe garantindo um passaporte para o prestígio como realizador: sua bilheteria, em 2018, foi de US$ 341 milhões, e o longa-metragem ainda colecionou indicações a prêmios, tendo concorrendo ao Oscar de edição de som. O mesmo modo Artaud de atuar pode se dizer de seus poucos parceiros de cena, com destaque para a (sempre feérica) atriz inglesa Emily Blunt, de “Sicário” (2015). Na simbiose estética entre Krasinski e Charlotte, uma fotógrafa conhecida pelo tenso “A Caça” (de Thomas Vinterbeg), os enquadramentos potencializam o planisfério que existe sob pálpebras escancaradas, atrás de verdades marejadas. A conexão dos personagens conosco, numa narrativa onde a palavra é murmurada até o limite do inaudível, é a colisão das retinas deles com as nossas. Nesse movimento, discreto, percebe-se em Krasinski mais do que um desejo de surfar no modismo do horror (como tradução de nossas crises morais).

Usina de calafrios, “A quiet place” (título original) cumpre, com excelência acima da expectativa, as tarefas exigidas pela cartilha de seu gênero: dá medo, faz pular da cadeira, entretém pelo masoquismo do espanto. É 1h30 de inquietação. Mas, se de um lado ele inebria, do outro, ele faz a plateia pensar: sobretudo sobre o isolamento. É o terceiro longa-metragem que Krasinski dirige: embora seja famoso pelo papel de Jim na série The Office, ele rodou Família Hollar, em 2016, e Brief interviews with hideous men (2009), mas o novo longa é o exercício pelo qual ele há de ser lembrado. Há um domínio total das ferramentas do espanto e há a crítica consciente da abnegação.
Na trama distópica, produzida por um expert no pop (o subestimado Michael Bay, de A Rocha), Emily e Krasinski chefiam uma das poucas famílias que sobrevivem a um massacre promovido por enormes criaturas (de patas aracnídeas) atraídas por barulhos. O silêncio que se sugere no título é a estratégia de mediação entre os cordeiros humanos e os algozes que rapinam suas carnes. Ao criar seus filhos, sobretudo a quase aborrescente Regan (Millicent Simmonds), Evelyn (Emily) e Lee (Krasinski, numa atuação cerebral, precisa) são obrigados a abrir mão das palavras e inventar outras formas de afeto, o que potencializa a dimensão de drama de um filme aparentemente talhado para ser apenas um fliperama. Numa rotina de supressão de verbos, interjeições e até suspiros, a fim de proteger sua cria, Emily e Lee conjugam o verbo sobreviver na desinência do risco, aprendendo a viver com o básico.
Essa lógica dá a “Um lugar silencioso” uma dimensão psicanalítica de estudo sobre a natureza humana, algo próximo de “O senhor das moscas” (1963), de Peter Brook. O que Krasinski faz é um debate sobre tolerância… e sobre o lugar do amor como um analgésico contra a brutalidade do mundo. Mas temos um debate regado a litros de adrenalina.

p.s.: À 1h45 desta terça, a Globo exibe um filme memorável dos anos 2000, que consolidou a reputação de Sam Mendes como bom diretor: “Estrada para Perdição” (“Road to Perdition”, 2002), com Tom Hanks no papel de um matador. A versão brasileira traz Mario Jorge dublando Hanks, com brilhantismo. Conrad L. Hall foi oscarizado pela fotografia, com uma estatueta póstuma. Paul Newman (1925-2008) é um dos destaques do elenco.

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