Laboratório Pop

Berlinale 2017: mulheres do Chile

17 fev 2017 / Sem comentários / em Cinema / por

 

una

Myrna Silveira Brandão, especial para o LABORATÓRIO POP, de Berlim

Sebastián Lélio tem centrado sua obra em histórias de mulheres fortes, que estão sempre presentes em seus filmes.  Una Mujer Fantástica”, seu novo trabalho, não foge à regra e é o representante do Chile nesta 67ª edição do Festival de Berlim, na disputa do Urso de Ouro.

Lélio está de volta ao festival, onde teve muito sucesso em 2013 com “Glória”, que saiu daqui com vários prêmios: da Confederação das Artes, o Ecumênico e ainda com o Urso de Prata de melhor atriz para Paulina García, que vive a personagem título.

Também por isso, “Una mujer fantástica” era aguardado com expectativa, foi muito aplaudido tanto na concorrida prévia para a imprensa quanto nas sessões para o público e é, sem dúvida, um forte candidato ao Urso de Ouro

A trama segue Marina, uma transexual que tenta ganhar a vida nas noites como cantora num clube simples e de reputação duvidosa. As coisas pioram após a morte repentina de Orlando, seu namorado. Ela precisará enfrentar o repúdio da família de Orlando, já que ninguém a quer por perto, mas Marina não tem intenções de sair de cena. A narrativa transcorre em quatro dias e também atuam no filme Aline Kuppenheim, Luis Gnecco e Amparo Noguera.

Em entrevista ao LABORATÓRIO POP, Lélio explicou as razões de sua predileção pelo tema das mulheres fortes em seus filmes.

A personagem Marina e a atriz Daniela Vega foram uma inspiração. Marina e sua valentia empurram o filme até um ponto de ousadia que, talvez eu mesmo como cineasta, não teria podido chegar com um personagem mais convencional. O fato de ser uma mulher forte é produto principalmente de uma intuição e do desejo de falar de um personagem feminino central e não um produto de uma agenda temática premeditada; há um interesse de minha parte de falar do feminino, de explorá-lo, de retratá-lo, que vem de um lugar muito mais intuitivo do que intelectual”, disse o diretor dando uma definição sobre a personagem.

Marina Vidal é uma pessoa que oscila, que muda, que se nega a ser definida somente numa palavra. Nesse sentido, o filme ressoa com sua personagem porque a história e sua própria identidade também oscilam, mudam… Marina batalhou para se transformar e conseguiu. E está completamente preparada para o mundo: o problema é que o mundo não está preparado para ela”, analisa.

Na vida real, a atriz Daniela Vega – que interpreta a transexual Marina – também é trans. Ela nasceu como homem e aos 15 anos começou sua transição para o sexo feminino. Sua família, constituída de pais e avós jovens, entenderam e ajudaram na sua transformação.

Lélio contou que a decisão de escolher Daniela para o papel, de modo que a atriz protagonista fosse de fato transexual, foi fundamental para que tivesse feito o filme.

O fato de Daniela ser uma mulher trans faz com que nos esqueçamos de qualquer teoria sobre o assunto. Ela não é uma atriz representando algo, simplesmente ela é. Por trás de toda a narrativa sofisticada que é o filme, há alguém real que cria uma tensão muito especial no contexto da história”, ressaltou.

Lélio mora aqui em Berlim desde 2013, quando “Glória”, esteve na seleção oficial do festival, mas tudo indica que o coração continua no seu país natal.

Vivo em Berlim, mas penso todo dia no Chile. É uma cidade poderosa e a distância tem um lado que me permite mirar a realidade chilena de outra forma”.

Perguntamos sobre as expectativas de resultado para “Una Mujer Fantástica” nesta Berlinale.

É difícil prever o que pode ocorrer; quando alguém faz um filme está tão perto dele que paradoxalmente deixa de vê-lo. Mas tenho muita curiosidade e entusiasmo de ver como será recebido. Creio que a Berlinale é uma vitrine poderosíssima e é um privilégio que tanta gente assista ao filme no seu nascimento. Além disso, o fato de Sony ter comprado o filme, o entusiasmo que o trailer tem despertado são alguns dos sinais do interesse que “Una mujer fantástica” pode gerar, mas o que predomina na equipe é a curiosidade de ver como ela é recebida e qual será seu caminho”.

Ao final não se negou a antecipar seu novo projeto

No momento, estou terminando de filmar um longa-metragem em Londres chamado “Desobediência”, protagonizado por Rachel McAdams e Rachel Weisz”, revelou.

Não deixe de comentar!

Útimas de Cinema

Útimos posts