Laboratório Pop

Berlinale 2017: O Tiradentes pré-herói

18 fev 2017 / Sem comentários / em Cinema / por

 

 

 

joaquim

 

Myrna Silveira Brandão, especial para o LABORATÓRIO POP, de Berlim

 

O cineasta Marcelo Gomes (do cultuado “Cinema, aspirina e urubus”) brilhou com “Joaquim”. O diretor pernambucano volta ao festival, onde esteve em 2014 como roteirista de “O homem das Multidões”, de Cao Hamburger que, naquele ano, participou da Panorama. O novo filme de Gomes é centrado na figura de Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), o soldado do Império que se transformou no líder da Inconfidência Mineira. Mas o diretor decidiu focar a história no homem comum que Joaquim foi, antes da construção do mito que depois ele se tornaria, e tentar entender como se deu o processo de transformação do alferes Joaquim José da Silva Xavier, que passou à história como Tiradentes.

Os filmes que Gomes dirigiu e também os que roteirizou – entre outros “Deserto feliz” e “Viajo porque preciso, volto porque te amo” – sempre tiveram uma grande identificação com os espectadores. Além disso, “Joaquim” traz à tona problemas sociais que ainda persistem por décadas no país o que, considerando ainda a tradição política da Berlinale, coloca o filme no páreo para prêmios.

Em entrevista ao LABORATÓRIO POP, Gomes falou sobre a decisão de centrar a história na dimensão humana do retratado e a importância da seleção para a Berlinale.

O que representa começar a carreira de “Joaquim” em Berlim?

“Representa muito. Primeiramente porque Berlim é um festival que se interessa por filmes de temática política e nosso filme quer refletir sobre as fraturas sociais provocadas pelo processo de colonização de nosso país e essas fraturas são as mesmas que aconteceram em outros países da América Latina, África e Ásia. Segundo porque teremos uma visibilidade imensa e para nosso filme – com pouca verba e de divulgação – isso é fundamental. Por fim, a Berlinale é um festival aberto, com a presença da crítica e do público e assim poderemos ter um primeiro contato com uma camada diversa de espectadores e sentir as primeiras reações”.

Por que decidiu focar a história na dimensão humana, no Joaquim antes da construção do mito que depois ele se tornaria?

“Nos filmes sobre a Inconfidência Mineira, o personagem Tiradentes é representado sempre de uma forma glorificante, mítica e por vezes até endeusado. Além disso, a narrativa desses filmes tenta fazer a compilação de toda a vida do herói (infância, juventude e fase adulta) para desembocar na sua participação no movimento da Inconfidência Mineira”.

A intenção foi retratá-lo a partir de um ponto de vista longe da figura do herói?

“Sim, primeiramente retratá-lo como um brasileiro comum: seus defeitos, contradições, medos, ambiguidades, com um caráter verdadeiramente humano. Em seguida, decidimos concentrar nossa narrativa no período em que Joaquim ocupa o cargo de Alferes da Guarda Militar e realiza viagens pelas precárias, lamacentas e perigosas estradas das Minas Gerais à procura de contrabandistas de ouro”.

Qual o ponto que para você, era o mais curioso, o mais intrigante?

“O que levou um alferes da guarda real a tomar parte em um movimento conspiratório contra a coroa portuguesa. Essa mudança de paradigma dentro de uma ética do século XVIII era o que mais me interessava”.

Como definiria o filme?

“Acho que não foram somente as ideias iluministas que influenciaram Joaquim, mas também o caldo social e cultural, que foi fundamental para sua tomada de consciência. E nesse sentido o filme é mais uma crônica sobre o Brasil colônia do que uma novela, mais uma poesia do cotidiano do século 19 do que um relato oficial”.

E a expectativa para o Urso de Ouro?

“Estar aqui é fantástico. Participar da competição já é o nosso prêmio maior”

 

“Mulher do Pai”, novo trabalho da diretora gaúcha Cristiane Oliveira era aguardado com curiosidade nesta 67ª edição do Festival de Berlim. Selecionado para a Generation, mostra destinada aos jovens, a plateia é composta, em sua maioria, por crianças e adolescentes, já que elas são os componentes do júri que escolherão o título vencedor. O filme teve sua estreia nacional no Festival do Rio, onde ganhou o prêmio de melhor direção, atriz coadjuvante para a uruguaia Verónica Perrotta (Whisky) e melhor fotografia para a paranaense Heloisa Passos.

Passado na fronteira entre Brasil e Uruguai, o filme segue Nalu (Maria Galant), uma jovem que precisa cuidar do pai cego (Marat Descartes), após a morte da avó. A relação entre ambos entra em conflito com a chegada de uma professora uruguaia (Perrota), que começa a afetar a vida da família. Cristiane Oliveira dirige o drama com mão firme, abordando com cuidado, em  ritmo lento, intimidade respeitosa e proximidade física sutil, o rito de passagem da jovem Nalu.

Em entrevista ao LABORATÓRIO POP, Cristiane falou de sua satisfação por fazer o lançamento internacional do filme em Berlim e de sua expectativa com esta seleção.

“Estrear na Generation possibilita ao filme, se inserir numa discussão que me interessa muito sobre a juventude, não como algo homogêneo, mas com um olhar para sua diversidade”, afirmou a diretora, que também estará nesta edição do evento como um dos títulos selecionados para participar do Talents, espaço dividido em programas distintos voltados às diversas áreas da produção. “Para mim, uma seleção dessas representa o reconhecimento de uma longa trajetória, não só minha, mas de diversos parceiros de trabalho meus. Trajetória que também foi coroada com a seleção para o Talents de Berlim, espaço de oficinas e networking do Festival”, comemora.

“Mulher do Pai” é um filme sobre mulheres fortes e para isso a escolha das locações foi muito importante.

“É uma região típica da criação de gado, que é bem representativa da cultura gaúcha. Nesse tipo de trabalho, não tem muito espaço para mulheres, é uma cultura machista que não é seguida somente pelos homens, mas por elas também”, explica a diretora acrescentando que é um filme que fala também de fronteiras.

“Não só da fronteira entre as culturas desses países (Brasil e Uruguai), mas também da fronteira da pele. Do toque entre duas pessoas e das fronteiras que criamos em nós mesmos, nas nossas limitações”, ressalta Cristiane com muitos elogios para o elenco, que considera fundamental para os bons resultados do filme.

“Mulher do Pai”, concorre ao Urso de Cristal, que é o troféu outorgado pela Generation.

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