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Berlinale: filmes memoráveis na tela

11 fev 2019 / Sem comentários / em Cinema

Rodrigo Fonseca
Até o dia 17, ainda tem muita estrela autoral para desfilar filmes inéditos na Berlinale, mas já é possível fazer uma lista do que houve de melhor por aqui.
1) Skin, de Guy Nattiv: Jamie Bell tem uma atuação desconjuntante no papel de um supremacista branco, tatuado dos pés à cabeça, que, ao se apaixonar por uma mãe solteira (a excepcional Danielle Macdonald), decide largar a célula neonazista onde cresceu e virar um sujeito avesso a intolerâncias raciais. Montagem avessa a clichês.
2) God exists, Her name is Petrynia, de Teona Strugar Mitevska: Vem da Macedônia o favorito ao Urso de Ouro. Nele, uma historiadora desempregada é alvo de sexismos e conservadorismos ao se apoderar de uma cruz da Igreja Ortodoxa em que só homens poderiam pegar. Igualdade de gêneros e fundamentalismo religioso são seus alvos.
3) The Golden Glove, de Fatih Akin: Uma espécie de Nosferatu de carne, osso e feiura, Fritz Honka (1935-1998), psicopata que assombrou Hamburgo, de 1970 a 75, matando e esquartejando garotas de programa, ganha uma cinebiografia digna de mestres do terror e do expressionismo das mãos do maior cineasta em atividade na Alemanha, o teuto-turco Fatih Akin (de “Contra a parede”). Jonas Dassler é o favorito ao Urso de Prata de melhor ator por seu desempenho assombroso como Honza.
4) Flatland, de Jenna Bass: Uma policial tenta investigar um crime em uma África do Sul que revela fantasmas nunca exorcizados do aparatheid;
5) Divino amor, de Gabriel Mascaro: Dira Paes botou Berlim no bolso ao viver uma Joana D’Arc de repartição pública neste trabalho de maturidade do realizador de “Boi Neon”, construído como uma reflexão sobre a fricção do corpo com o Estado. Escriturária em um cartório, Joana (Dira) defende Deus sobre todas as coisas num Brasil futurista, de 2027, onde o carnaval deu lugar a uma rave de Cristo. Mas o Espírito Santo há de aprontar com sua fiel.
6) Mid90s, de Jonah Hill: O astro de “Superbad – É hoje” (2007), duas vezes indicado ao Oscar de coajudvante (por “O homem que mudou o jogo” e “O lobo de Wall Street) foi estrear na direção recriando a época de sua educação sentimental, a década de 1990. Lá, entre pistas de skates, um rapaz assolado por bullying e solidão busca uma nova forma de se ressocializar. Isso narrado com uma fotografia que aposta na vertigem.
7) Tremores, de Jayro Bustamante: Cura gay é o assunto do realizador de “Ixcanul”, que volta a falar sobre descobertas sexuais e amadurecimento só que de uma perspectiva masculina: Pablo (Juan Pablo Olyslager) é um consultor financeiro que tem sua vida virada do avesso depois que decide se assumir homossexual e morar com o namorado.
8) The shadow play, de Lou Ye: O diretor de “Amor e dor” (2011) faz uma reinvenção dos códigos do cinema noir num thriller sobre corrupção, no qual um jovem policial tenta averiguar o que há de errado na morte de um empresário.
9) Estou me guardando para quando o carnaval chegar, de Marcelo Gomes: Toritama é a capital nacional do jeans, mas é também um lugar onde as pessoas optam por uma autonomia profissional, avessa aos grilhões da mais valia, a fim de se apropriarem do Tempo. Mas, usando um dispositivo digno do diretor Dziga Vertov, em seu “O homem com a câmera” (1929), Gomes faz uma observação (sensorial) do fluxo da vida naquele canteiro de linha azul e agulha em disparada para tentar entender o que torna a temporalidade algo tão inalcançável.
10) Système K, de Renaud Barret: Na lógica do luxo ao lixo, este .doc sobre formas de resistência estética nas ruas do Congo acompanha as estratégias de um grupo de multiartistas de Kinshasa que utilizam capsulas de bala, sucata de eletrodomésticos e caveiras para fazer instalações das mais provocativas. É um filme sobre o redesenho do espaço urbano.

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