Nada mudou desde o fim dos anos 60, quando Steve Hackett mordeu um lugar no Genesis, ícone do rock progressivo. Mesmos solos, mesma dinâmica, mesmos arranjos, mesma fidelidade à junção de rock, erudito e jazz. Que bom. O concerto com a banda Argentina Genetics que passou nesse sábado pelo Vivo Rio é exatamente igual ao do Genesis de 50 anos atrás. E essa é a chancela para que mais de duas mil pessoas aplaudissem o mais do mesmo, que nesse caso era exatamente o que se esperava.
A junção do guitarrista original, que aplacou as letras de Peter Gabriel, com o Genetics, banda cover do Genesis, é nitidamente natural. Steve Hackett, aos 76 anos, precisa de uma banda de suporte assim, já com tudo pronto, sem necessidade de múltiplos ensaios. É preciso apenas guiar-se pela magia registrada em álbuns como “Selling England by the pound” (73) Foxtrot” (72) e “The lamb lies down on Broadway” (74), entre outros não menos importantes.
O rock progressivo morreu para a indústria fonográfica bem antes do que o próprio rock. Simplesmente porque reúne refinamento, apuro, sofisticação e técnica, características que, para a música dos tempos atuais, é chatice. Para os músicos medíocres, inalcançável.
Canções e suítes enormes que não atravessam 10 segundos cerebrais de tiktokers são tormento para executivos de vendas de hits, mas um abrigo para gente mais velha, que foi ao show do Vivo Rio como se estivesse num um culto inédito a valores de um mundo que não mais existe.
O rock progressivo é para poucos. São sinfonias que só podem ser entendidas ou por músicos de alta linhagem, por gente que viveu a época ou por solitários que resistem ao triste momento da música no mundo, especialmente no Brasil, onde predominam cópias de cópias de sertanejos, funks e afins.
Portanto o show de Steve Hackett deve ser entendido como um concerto erudito para fãs convictos. Várias gerações acompanham clássicos como “Firth of fifth” como a execução de um hino de suas vidas, a reboque de, provavelmente, um dos solos de guitarra mais belos de todos os tempos, com seus entroncamentos e crescentes, delimitados por uma maceração de bateria, que promove o levante da ambiência.
O show de Steve Hackett com o Genetics é uma aula de arranjo, do tempo em que as escolas do rock se preocupavam com estética e execução. A narrativa do show incita uma série de reflexões sobre onde fomos parar com guitarras e sintetizadores, hoje a serviço de modelos pop descerebrado.
Steve Hackett não é estrela solitária no show. Vem de Tom Price a voz que emula Peter Gabriel com um timbre que suga a alma do vocalista original em todos os seus parâmetros e que culmina com a sensação de um verdadeiro show do Genesis. Em muitas das vezes nas quais Hackett formatou uma banda para o Brasil, seus vocalistas atenderam ao chamado de forma apenas Ok. Price, não. Price é um estudioso de Gabriel, alternando graves e agudos na região de seu provável ídolo, e ainda dando sua contribuição na flauta.
Outro herói coadjuvante do show é o guitarrista Léo Fernandez, que até nos duelos combinados com Hackett não se apagou. Ótimo como guitarrista base, melhor ainda como solista, sabendo desligar quando o mestre tinha a palavra.
No rock progressivo, sintetizadores são o universo inteiro. E Horácio Pozzo faz a cama que o som de Hackett precisa para desfilar temas orquestrais ou semi-orquestrais,
como um grande núcleo harmônico.
São cada vez mais raros os shows de rock progressivo. Além de Hackett, seguem em turnê mais celebradas os americanos do espetacular e imortal Kansas, o inglês Marillion com Steve Hogarth e agora o canadense Rush, com Geddy Lee e Alex Lifeson com uma turnê confirmada com a apenas Ok baterista alemã Anika Nilles, que na minha opinião será um vexame secular, em lugar do inesquecível Neil Peart.
De todo modo o rock progressivo está aí, lutando contra sua sentença de morte, apoiado por insistentes seres vivos. Steve Hackett foi o padre necessário aos fiéis do gênero.
