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Twilight Sad está de volta com Mogwai e Robert Smith

It’s The Long Goodbye exalta guitarras e mixagem ao estilo My Bloody Valantine

por Robert Halfoun

O The Twilight Sad levou sete anos para fazer It’s the Long Goodbye. Nesse intervalo, James Graham tornou-se pai, viu a mãe atravessar a demência até a morte, entrou em colapso físico e mental e a banda cancelou uma turnê com The Cure em 2023. O disco, lançado em 27 de março de 2026 pela Rock Action Records, nasce desse período, mas não se limita ao relato biográfico: ele reorganiza musicalmente a trajetória do grupo, hoje reduzido ao núcleo James Graham e Andy MacFarlane.

Formado em Kilsyth, na Escócia, e ativo desde 2003, o The Twilight Sad sempre ocupou um lugar particular dentro do rock britânico: emocionalmente intenso, ruidoso, ligado ao pós-punk, ao shoegaze e à tradição escocesa de bandas que fazem da repetição e da massa sonora uma linguagem. Desde Fourteen Autumns & Fifteen Winters, de 2007, o grupo construiu uma identidade marcada pelo sotaque escocês frontal de Graham e pelas guitarras turbulentas de MacFarlane. O novo álbum consolida essa trajetória dentro de um campo que combina densidade emocional e construção sonora rigorosa.

A biografia da banda também é uma história de redução. O que começou como grupo foi se concentrando até chegar ao duo atual. Graham e MacFarlane são os únicos membros originais remanescentes, e isso pesa no som de It’s the Long Goodbye. A produção não tenta simular uma formação cheia; ela organiza convidados em torno de uma identidade já muito definida. Andy Savours, ligado ao universo do My Bloody Valentine, participa da gravação como produtor; Chris Coady, associado a Yeah Yeah Yeahs e Slowdive, assina a mixagem. A combinação se traduz em um som de alta densidade, com guitarras espessas, mas com separação suficiente para que cada camada mantenha função clara.

O ponto musical decisivo está nas guitarras. Depois de uma fase em que os sintetizadores ganharam mais espaço, MacFarlane recoloca a guitarra no centro da arquitetura sonora. O disco trabalha com camadas de distorção mais definidas, riffs repetitivos e progressões que acumulam tensão até o limite. Os sintetizadores permanecem, mas deslocados para função de ambiência e sustentação, criando contraste entre pressão e abertura. A dinâmica do álbum se constrói nesse eixo: ataque das guitarras, expansão dos synths, retorno ao peso.

Faixas como “Waiting for the Phone Call” operam pela aceleração nervosa de camadas sobrepostas; “Dead Flowers” amplia o campo harmônico com teclados que sustentam uma escala mais aberta e lenta; “Chest Wound to the Chest” e “Back to Fourteen” trabalham com crescendos progressivos, estruturando o disco como uma sequência de acúmulo e descarga. O movimento não é apenas lírico — é físico. O som empurra as músicas para frente.

Essa organização revela uma mudança de método. O Twilight Sad reduz a névoa sonora que marcava parte dos discos anteriores e opta por arranjos mais legíveis. O peso não vem de saturação indistinta, mas da precisão com que cada elemento entra, sustenta e sai. A base rítmica acompanha essa lógica: padrões mais simples, repetitivos, funcionando como eixo de estabilidade para guitarras e voz.

A presença de Robert Smith atua diretamente nesse nível estrutural. Ele participa em três faixas, toca guitarra e teclados e contribui na organização dos arranjos, sugerindo cortes, entradas e variações dinâmicas. Sua atuação não altera a identidade da banda, mas refina a forma como o material se desenvolve. O disco ganha em concisão e controle sem perder intensidade.

David Jeans, do Arab Strap, e Alex Mackay, ligado ao Mogwai, ampliam o corpo instrumental. As guitarras — elemento central do álbum — carregam essa herança direta do circuito escocês. Não há tentativa de deslocamento estilístico. O disco se ancora numa tradição local muito clara e a expande com precisão técnica.

A voz de Graham aparece mais exposta. Menos reverberação, menos camadas de efeito, maior presença no mix. Isso altera a relação entre voz e instrumentação. Em vez de flutuar sobre o som, ela entra em confronto com ele. A entrega permanece intensa, mas agora com menos mediação estética.

O título do álbum vem da experiência direta de acompanhar a demência da mãe. A ideia de um “longo adeus” não é figura de linguagem, mas descrição de um processo vivido ao longo de anos. Essa experiência reorganiza a escrita, mas também exige um novo suporte musical — mais direto, mais físico, mais sustentado.

A relação com The Cure define parte do lugar atual do The Twilight Sad no cenário internacional. A parceria construída ao longo da última década ampliou a circulação da banda sem alterar sua linguagem. Em 2026, o grupo mantém esse modelo: turnê própria em salas médias pela Europa — Milão, Berlim, Paris, Londres, Glasgow — seguida por datas selecionadas ao lado do The Cure em eventos maiores.

Esse dado define o posicionamento. O The Twilight Sad é uma banda de culto com reconhecimento crítico consolidado e público fiel, mas cuja escala natural permanece nos palcos médios. O som é grande, a construção é detalhada, as conexões são relevantes, mas a operação não se desloca para o mainstream.

It’s the Long Goodbye funciona dentro dessa lógica. Um disco em que produção, arranjo e mixagem deixam de ser suporte e passam a estruturar o que está sendo dito. A biografia explica a origem. A música sustenta o resultado.