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Janus Rasmussen expande o minimal techno em ótimo novo disco

Inert o afasta da pista e o consolida entre os principais nomes do eletrônico alternativo

por Robert Halfoun

Há um paradoxo no título do novo álbum de Janus Rasmussen. Chamar um disco de Inert — “inerte”, “sem movimento” — e preenchê-lo com canções que procuram romper a própria estagnação revela desde o início o conflito que orienta a obra.

Em declarações dadas antes do lançamento, o músico afirmou que o álbum nasceu da necessidade de escapar da forma como vinha compondo, permitindo-se cantar mais, atravessar gêneros sem preocupação com categorias e transformar em música sentimentos difusos de culpa, fragilidade e reinício criativo.

Essa chave de leitura atravessa todo o trabalho e explica por que Inert soa menos como uma continuação de Vín do que como uma reinvenção de sua identidade artística.

Rasmussen ocupa uma posição singular na música eletrônica europeia contemporânea. Nascido nas Ilhas Faroe e estabelecido em Reykjavík, tornou-se conhecido internacionalmente como metade do Kiasmos, parceria com Ólafur Arnalds que ajudou a aproximar minimal techno, ambient e escrita neoclássica para um público muito além do circuito especializado.

Paralelamente, sua passagem pelo Bloodgroup e seu trabalho como produtor e engenheiro de mixagem na cena islandesa consolidaram um repertório estético suficientemente amplo para que sua carreira solo nunca fosse percebida como simples derivação do projeto principal.

Em Inert, essa autonomia aparece de forma mais evidente do que em qualquer lançamento anterior.

Quem espera encontrar uma repetição da arquitetura elegante do Kiasmos provavelmente será surpreendido. A pulsação eletrônica continua presente, mas deixa de ser o eixo absoluto da narrativa.

Rasmussen incorpora sua voz de maneira recorrente, não como elemento decorativo, mas como parte da própria textura sonora. Os vocais surgem processados, multiplicados e dissolvidos entre sintetizadores, aproximando-se mais de um instrumento adicional do que da tradição da canção eletrônica.

O resultado desloca o álbum para uma região híbrida onde convivem IDM, synth-pop, ambient, techno melódico e eletrônica experimental sem que nenhuma dessas linguagens se imponha completamente sobre as demais.

Essa abertura formal corresponde exatamente ao desejo declarado pelo artista de abandonar fronteiras rígidas entre gêneros.

Essa liberdade talvez seja a maior virtude do disco. Em vez de construir uma sequência homogênea de faixas voltadas para clubes, Rasmussen alterna momentos de impulso rítmico com passagens de suspensão quase contemplativa.

A dinâmica do álbum depende menos da intensidade das batidas do que da manipulação do espaço, da entrada e retirada de elementos e da maneira como pequenas alterações de timbre reorganizam continuamente a percepção do ouvinte.

Há um evidente prazer em trabalhar escalas microscópicas, fazendo com que mudanças aparentemente discretas produzam efeitos emocionais amplos.

De uma maneira geral, a crítica identificou justamente essa expansão de linguagem como um dos pontos centrais de Inert.

A revista Igloo publicou que Rasmussen amplia seu vocabulário ao incorporar vocais e transitar entre diferentes vertentes da eletrônica sem perder o rigor de sua produção, enquanto destaca a função estrutural dos interlúdios e das pausas na construção do fluxo do álbum. A publicação também chama atenção para um equilíbrio raro entre acessibilidade e experimentação, evitando tanto o hermetismo quanto o apelo comercial mais evidente.

Essa posição intermediária talvez explique por que Janus Rasmussen permanece uma figura relativamente discreta para o grande público, mas altamente respeitada entre músicos, produtores e ouvintes da eletrônica alternativa.

Sua obra não pertence ao universo do EDM nem ao experimentalismo radical; fica num lugar onde sofisticação técnica e comunicação emocional caminham juntas.

O próprio compositor afirmou voltar seu interesse novamente para a tradição do IDM dos anos 1990 e para uma música capaz de circular livremente entre BPMs, formatos e referências, recusando limitações impostas por rótulos estilísticos.

Inert materializa exatamente essa ambição.

Ao longo de pouco mais de uma década, Rasmussen vem se posicionando como um dos representantes mais consistentes da geração que transformou a eletrônica nórdica em espaço de convergência entre composição contemporânea, design sonoro e cultura de pista.

Sua contribuição não está em reinventar radicalmente a linguagem eletrônica, mas em demonstrar que ainda é possível produzir surpresa através da precisão, da contenção e da inteligência formal.

Enquanto muitos discos recentes apostam na saturação de estímulos, Inert prefere retirar camadas, abrir espaço e confiar na capacidade do ouvinte de perceber detalhes.

Definitivamente não é um disco para consumo imediato. Sua riqueza dificilmente se revela em uma primeira audição, justamente porque ele foi construído sobre deslocamentos mínimos e sobre a lenta transformação dos elementos sonoros.

Mais uma questão: se você quiser entender as referências de Kevin Parker (Tame Impala), muitas delas estão aqui.

Faixas para ir direto ao ponto: “Drain”, “Doom”, “Bones”, “Spiraling”.