Há uma frase que Julian Casablancas repete desde 2001, em variações que mudam de disco para disco mas nunca de sentido: a de que soa como alguém falando de dentro de um alto-falante quebrado, como se a voz chegasse sempre de um outro lugar, nunca do corpo que a produz.
Em Reality Awaits, sétimo álbum do The Strokes e o primeiro desde The New Abnormal (2020), essa distância deixa de ser um efeito de produção e vira o assunto do disco. O Auto-Tune que abre “Psycho Shit” — um sussurro que cresce por cinco minutos até desabar numa bateria em cacofonia — não está ali para esconder imperfeição.
Está ali porque o disco inteiro trata do que significa envelhecer sendo ouvido pelo mundo inteiro como se ainda se tivesse 20 anos.
Gravado na Costa Rica com Rick Rubin, que já havia produzido o disco anterior da banda, Reality Awaits reúne nove faixas que recusam a arquitetura mais previsível do comeback de banda consagrada.
Não há aqui o equivalente a “At the Door” ou “Bad Decisions”, ganchos desenhados para tocar bem no rádio de carro.
Em vez disso, a banda constrói uma sequência de descontinuidades: “Dine N’Dash” parte de um groove pós-punk gelado e melódico — quase um eco distorcido de “The Adults Are Talking” — para desembocar em Casablancas fazendo spoken word com sotaque britânico sobre uma mudança brusca de dinâmica.
É a faixa mais imprevisível do catálogo da banda, e também a que melhor resume a proposta do disco: cada música pode abandonar o que estabeleceu nos primeiros vinte segundos.
O Auto-Tune, previsivelmente, tornou-se o centro do debate público em torno do disco — presente nos dois singles de antecipação, “Going Shopping” e “Falling Out of Love”, e usado de forma ainda mais desconcertante em “Lonely in the Future”, onde uma linha de baixo distorcida promete uma faixa mais agressiva do que a que de fato se desenrola.
Mas reduzir o disco a essa discussão é perder o que há de mais interessante nele: o efeito funciona como comentário, não como muleta.
Em “Falling Out of Love”, a voz processada de Casablancas canta “estou apaixonado por um fantasma” sobre um arranjo deliberadamente frio — a tecnologia reforça o tema, o de um afeto que já não consegue mais se expressar em termos humanos.
Quando a mesma ferramenta aparece em “Going to Babble On”, a mais próxima do que se poderia chamar de Strokes clássico atualizado, ela é abandonada em favor de riffs limpos e ágeis, como se a banda quisesse provar que sabe quando guardar o recurso.
Do som para o discurso, o disco constrói um argumento sobre ciclos e ruína que ecoa o próprio título. “Going Shopping” descreve o progresso humano como acúmulo de escombros — “construindo castelos com os ossos de árvores mortas” —, e “Lonely in the Future” trata da passagem do tempo com uma mistura de resignação e provocação, incluindo uma alfinetada explícita a críticos que ainda esperam da banda o mesmo disco de 2001.
Há também espaço para digressões que não avançam tese nenhuma e são melhores por isso: o solo de metais quase psicodélico em “Liar’s Remorse”, os fragmentos vocais soltos ao fim de “The Fruits of Conquest” — faixa que também revela, mais uma vez, a seção rítmica de Nikolai Fraiture e Fabrizio Moretti como o elemento mais subestimado da banda.
O encerramento, “Tyrants of the Mellow Moon”, resume a estratégia do disco: começa como balada tranquila e é interrompida, na metade, por uma explosão de guitarras harmonizadas e hi-hat que rompe deliberadamente o clima que a faixa vinha construindo.
É um gesto de quem não está interessado em oferecer resolução fácil — nem ao ouvinte, nem à própria carreira.
Reality Awaits não é o disco que reconcilia o The Strokes com a nostalgia em torno de Is This It, e essa recusa é o ponto.
A banda tem, há duas décadas, sido mais interessante nos momentos em que ignora o que se espera dela do que naqueles em que a atende — de First Impressions of Earth a Angles passando pelo EP Future Present Past, sempre com o risco calculado de decepcionar quem queria apenas mais do mesmo.
Aqui esse risco aparece de forma mais nua do que nunca, e o Auto-Tune de Casablancas — tema que dominou toda a cobertura do lançamento — é menos uma escolha estética isolada do que a expressão sonora mais óbvia de um disco inteiro sobre a dificuldade de soar autêntico depois dos quarenta, sob vigilância constante.
Nem todo experimento aqui funciona — “Psycho Shit” tenta demais logo na abertura, e algumas transições soam mais abruptas do que necessário —, mas é um disco de banda que ainda decide o próprio caminho, mesmo quando esse caminho incomoda.
