Richard Reed Parry talvez seja o integrante mais fascinante do Arcade Fire. Não é o líder da banda nem seu principal compositor, mas há anos funciona como um arquiteto sonoro, o músico que transforma ideias em atmosferas.
Curiosamente, ele chega a Were “The Watchtowers” logo depois de um dos momentos mais discutidos da carreira do grupo. Pink Elephant, lançado este ano, foi recebido com estranhamento por parte dos fãs. Um deles resumiu a decepção com uma frase que rapidamente circulou nas redes: “um ótimo disco para aulas de ioga”.
A provocação talvez seja exagerada, mas ajuda a entender por que este novo trabalho soa tão revigorante.
O parceiro de Parry é Dallas Good, fundador, guitarrista, cantor e principal compositor dos The Sadies. Se o Arcade Fire projetou o rock alternativo canadense para o mundo, os Sadies fizeram um percurso menos vistoso, porém igualmente importante.
Durante mais de trinta anos, construíram uma obra que misturava country, folk, garage rock, surf music e psicodelia com uma elegância rara. Nunca foram uma banda de multidões. Tornaram-se, isso sim, uma banda admirada por músicos. Wilco, Neko Case, Kurt Vile e dezenas de artistas da cena alternativa sempre reconheceram nos Sadies uma influência decisiva.
A parceria entre Parry e Good começou muito antes da morte do guitarrista, em fevereiro de 2022, vítima de causas naturais, aos 48 anos.
As gravações avançaram lentamente durante anos, sem calendário ou pressão da gravadora. Quando Good morreu, as bases do álbum já estavam prontas: vozes, guitarras e praticamente todas as composições haviam sido registradas.
É por isso que Were “The Watchtowers” é um álbum póstumo. Não porque alguém tenha reunido sobras de estúdio, mas porque Richard Reed Parry assumiu a tarefa delicada de concluir um trabalho interrompido pela morte do parceiro, preservando sua presença em vez de reescrevê-la.
O resultado impressiona justamente pela naturalidade. Em nenhum momento o disco soa como homenagem, memorial ou exercício de reverência. São dez canções de uma beleza serena, construídas sobre violões, guitarras cristalinas, harmonias vocais impecáveis e arranjos discretos de cordas e teclados.
Parry resiste à tentação de sofisticar excessivamente o material; Good impede que a música escorregue para o tradicionalismo. Entre os dois surge uma sonoridade que flerta com a americana, o folk britânico, o pop barroco e a psicodelia, sempre conduzida por melodias fortes e uma produção que privilegia espaço e silêncio.
A primeira audição já deixa claro que se trata de um trabalho acima da média.
O que surpreende é perceber que essa impressão inicial não diminui com o tempo. Ao contrário. Cada nova escuta revela pequenas camadas que passaram despercebidas: uma guitarra que responde discretamente à melodia principal, um coro que aparece por poucos segundos, intervenções quase invisíveis de cordas que ampliam a atmosfera sem jamais disputar protagonismo com as canções.
Parry talvez nunca tenha encontrado, fora do Arcade Fire, um parceiro tão complementar. E Dallas Good deixa como despedida involuntária não um epitáfio musical, mas uma coleção de canções que confirmam por que sempre foi considerado um dos compositores mais elegantes e subestimados do rock canadense.
Se Pink Elephant levantou dúvidas sobre os caminhos do Arcade Fire, Were “The Watchtowers” devolve a Richard Reed Parry aquilo que sempre pareceu distingui-lo: a capacidade de transformar sofisticação em emoção, sem nunca confundir complexidade com excesso.
