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Sem nostalgia, American Football só melhora com o tempo

O que acontece depois da juventude? Novo disco, LP4, transforma a pergunta em música

por Robert Halfoun

Quando o American Football surgiu em 1997, em Urbana, Illinois, parecia apenas mais um desdobramento da cena independente do Meio-Oeste americano. Mike Kinsella, Steve Holmes e Steve Lamos vinham de diferentes projetos locais e jamais imaginaram que o único álbum lançado antes da separação se transformaria em uma das obras mais influentes do rock alternativo das décadas seguintes. Lançado em 1999 pela Polyvinyl, o disco vendeu modestamente e a banda encerrou as atividades no ano seguinte. Durante alguns anos, American Football permaneceu como uma referência conhecida por um público relativamente pequeno.

A mudança começou na segunda metade dos anos 2000. Blogs especializados, fóruns e plataformas digitais apresentaram o álbum de estreia a uma geração que não havia acompanhado seu lançamento original. Gradualmente, músicas como “Never Meant” passaram a exercer influência sobre artistas mais jovens e o disco de 1999 deixou de ser uma curiosidade cult para adquirir status de clássico moderno. O que havia sido um fracasso comercial converteu-se em uma referência para diferentes segmentos da música alternativa, do indie rock ao math rock.

Quando a banda se reuniu em 2014, a questão central era saber se conseguiria sobreviver ao peso da própria reputação. LP2, lançado em 2016, e LP3, em 2019, mostraram que o trio não estava interessado em reproduzir a atmosfera do trabalho que o transformou em objeto de culto. LP4 leva essa trajetória adiante e nasce de um período particularmente difícil na vida de seus integrantes. Em reportagem publicada pela GQ, Mike Kinsella descreveu os últimos anos como uma fase marcada por separações, crises pessoais e instabilidade emocional. Essas experiências se tornaram a matéria-prima das novas composições.

Essa dimensão autobiográfica distingue LP4 da maior parte da produção nostálgica associada a bandas veteranas. Em vez de revisitar a juventude, o álbum trata de questões ligadas à meia-idade: divórcios, alcoolismo, culpa, terapia, relações familiares desgastadas e a tentativa de reorganizar a própria vida depois de décadas de escolhas e consequências. O disco não oferece respostas nem busca romantizar o passado. Parte da constatação de que o tempo não elimina as fragilidades humanas.

Musicalmente, a identidade do American Football permanece reconhecível. As guitarras limpas e entrelaçadas continuam sendo a espinha dorsal das composições, agora cercadas por sintetizadores e texturas mais atmosféricas. A produção de Sonny DiPerri amplia a profundidade sonora e aproxima determinadas passagens do pós-punk, do dream pop e do rock de atmosfera. Em sua análise, a Pitchfork observou que o grupo abandonou definitivamente qualquer tentativa de reviver a juventude e produziu um dos trabalhos mais consistentes de sua fase madura.

Canções como “Bad Moons” concentram a carga emocional do álbum e se expandem em longos trechos instrumentais. “No Feeling” revela afinidades com o universo construído por The Cure, enquanto “Wake Her Up” apresenta uma estrutura mais direta e melódica. Pequenas peças instrumentais espalhadas pelo repertório funcionam como momentos de transição entre relatos marcados por desgaste e introspecção.

Quase três décadas depois da formação, o American Football ocupa uma posição singular no rock alternativo. Sua importância histórica deixou de estar vinculada a qualquer cena específica. O grupo passou a ser tratado como uma das referências da música independente americana surgida nos anos 1990, influência reconhecida por artistas de diferentes gerações. O álbum de releituras lançado em 2024, reunindo músicos mais jovens, demonstrou a extensão desse legado.

No cenário alternativo norte-americano, poucos grupos de sua geração conseguiram preservar um prestígio comparável. O American Football não depende exclusivamente do peso simbólico do primeiro disco nem se limita ao circuito da nostalgia. Internacionalmente, continua sendo uma referência para músicos ligados ao indie rock, ao pós-rock e ao rock de atmosfera. Sua trajetória se aproxima da de bandas como Slowdive e My Bloody Valentine, cuja relevância ultrapassou as fronteiras das cenas às quais originalmente pertenciam.

LP4 oferece uma perspectiva diferente daquela registrada em 1999. O primeiro álbum capturava a incerteza de quem ainda tentava descobrir o próprio lugar no mundo. LP4 trata do momento em que a vida já aconteceu e suas consequências são inevitáveis. Frustrações, perdas e arrependimentos substituem as expectativas da juventude. Em vez de competir com a obra que o transformou em um grupo cult, o American Football escolhe acrescentar novos capítulos a uma história que parecia encerrada no início dos anos 2000.