Laboratório Pop

‘Aquarela’ usa a paleta da ecologia para pintar o assombro

12 ago 2019 / Sem comentários / em Cinema


RODRIGO FONSECA
Falou-se muito sobre ecologia em Locarno, nos primeiros dias do festival suíço, sobretudo ao fim da projeção de “A febre”, de Maya Da-Rin, em suas reflexões existenciais sobre um índio acometido de um desequilíbrio termal. Os papos sobre ecossistema coincidiram com a campanha promocional que se fez na cidade e em diferentes cantos da Europa da estreia internacional do .doc “Aquarela”, uma investigação feita pelo russo Victor Kossakovsky, sobre ameaças às riquezas hídricas do mundo. Trata-se de um longa mais perto do ensaio poético (em prol da Natureza) do que das convenções fílmicas mais comuns aos retratos da vida como ela é.
“Eu não faço cinema para fazer política, pois acredito na força que essa forma de arte tem como linguagem, para além das teses que possa levantar”, disse Kossakovsky, em papo com o Laboratório Pop, explicando como filmou tomadas arrebatadoras da força das águas do planeta, em locais diversos, do Lago Baikal da Rússia ao litoral de Miami, passando por corredeiras na Venezuela. “Imagem é a essência do cinema. É importante entender o que cada imagem tem a dizer num filme, pela cor, pela dimensão plástica. Um filme é um quebra-cabeças de sentidos”.
Exibido antes no Festival de Veneza, com enorme sucesso de público e crítico, “Aquarela” testemunha desde o deslocamento de placas de gelo até uma tempestade, retratando de formas inusitadas o fluxo hídrico seja da chuva, seja dos rios, lagos e mares para onde o cineasta mira sua câmera. A água vai sendo descontruída, a cada quadro, num efeito sensorial arrebatador. “No documentário, ao contrário do que se faz na ficção, a Natureza é quem guia o que fazemos. Não escolhi as pessoas que filmei: o roteiro aqui não foi escrito, a câmera foi me levando aos encontros, guiado pela água”, disse Kossakovsky.


Voltando a Locarno, hoje, o festival confere o badalado “The last black man in San Francisco”, com Danny Glover, pilotado por Joe Talbot: antes de evento suíço, este ensaio sobre exclusão racial fez sua estreia mundial em Sundance, nos EUA, me janeiro. Na ocasião, Talbot saiu de lá com o prêmio de Melhor Direção e com o Prêmio Especial do Júri. A trama acompanha a luta real de Jimmi Fails (que interpreta a si mesmo) para encontrar suas origens em uma cidade em mutação, assolada pelo racismo. Aliás, os conflitos raciais são o assunto central de uma das mostras paralelas de Locarno, a seção Shades of Black. Esta dá espaço para “Abolição”, de Zózimo Bulbul (1988), e para “Amor maldito”, de Adélia Sampaio (1984).
De tudo o que se viu em Locarno até aqui, na disputa por láureas, a narrativa mais fora das convenções é “Echo” (“Bergmál”), da Islândia. Nesse divertido filme-coral, o diretor Rúnar Rúnarsson (de “Volcano”) junta microepisódios da vida cotidiana de seu país no período que vai da véspera do Natal ao Réveillon. As microscópicas situações filmadas incluem desde a entrada de uma idosa no universo da realidade virtual até o parto de um bebê no fim do ano, passando por um desabafo numa clínica de bronzeamento artificial.

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