Cola é um trio de pós-punk formado em Montreal por Tim Darcy e Ben Stidworthy, ambos ex-integrantes do Ought, ao lado do baterista Evan Cartwright. A banda surge no início da década de 2020 como uma continuação indireta do trabalho anterior, mas sem tentar reproduzi-lo.
Em vez do discurso mais expansivo e quase teatral, o Cola opera numa linguagem mais contida e interessante. Ela é baseada em repetição, tensão rítmica e estruturas enxutas, próximas de um pós-punk minimalista que privilegia o espaço entre os elementos tanto quanto os próprios elementos.
É a partir dessa base que surge Cost of Living Adjustment. O terceiro álbum do grupo não rompe com o vocabulário que a banda vinha construindo, mas o expande. Se há instabilidade por um lado, há controle por outro. É bom de ouvir.
O que antes era economia de recursos agora soa como uma escolha consciente de deixar as estruturas respirarem até o limite, para que elas se dissolvam a seguir. Há atrito e tensão o tempo todo. Há uma alma punk, em certo sentido, muito presente na banda.
Cost of Living Adjustment, o título do disco, traz a ideia também para o campo conceitual. A referência direta ao reajuste de custo de vida funciona aqui como metáfora de um cotidiano em que nada se estabiliza completamente – tão típico do tempo em que vivemos.
O que está em jogo não é uma crítica formulada em termos explícitos, e sim a sensação de que a vida contemporânea exige correções constantes apenas para manter um nível mínimo de funcionamento. Essa ideia atravessa a obra como clima, mais do que como discurso.
A maneira falada como Tim Darcy coloca a sua voz reforça a coisa toda.
Em comparação com os trabalhos anteriores, a principal mudança está na forma como a banda lida com repetição e densidade. Há uma combinação consistente de guitarras que deixam de atuar apenas como contorno e agora criam camadas mais espessas, com linhas de baixo bem estruturadas, típicas do pós-punk, aliás.
Veículos da crítica alternativa como Pitchfork e The Skinny apontam esse movimento como uma ampliação da linguagem da banda, em que o minimalismo inicial dá lugar a uma forma mais expansiva e instável, sem que isso signifique perda de coerência.
Essa escolha também explica parte da recepção dividida do álbum. Em uma escuta rápida, a ausência de contrastes mais explícitos entre as faixas pode sugerir homogeneidade. Em escutas mais atentas, no entanto, o disco revela uma lógica interna baseada menos em variação imediata e mais em pequenas mudanças de textura e intensidade que acumulam efeito ao longo do tempo.
