Rodrigo Fonseca
Agnès Varda, Zhang Yimou, André Téchiné, Isabel Coixet, Fatih Akin: um time desses, com filmes inéditos, faz qualquer festival de cinema mundo se tornar um painel autoral de respeito. Por isso, eleve as expectativas diante da 69. Berlinale, pois essa turma de poetas da imagem vai colocar seu poder de fogo em ação nas telas da capital alemã a partir desta quinta-feira. Pra abertura, foi programada a comédia dramática “The kindness of strangers”, da diretora dinamarquesa Lone Scherfig (“Um dia”). Zoe Kazan, Tahar Rahim e Bill Nighy estrelam uma trama sobre um grupo de pessoas maculadas pela dor que trançam suas angústias durtante um inverno em Nova York. O eixo do novo longa-metragem da realizadora de “Educação” (2009) é a luta de uma mulher para fugir de um casamento abusivo.
“Histórias de amor são aventuras de entendimento. A base delas é o esforço de duas ou mais pessoas para acomodar feridas”, disse Lone, em meio às filmagens.
Aos 59 anos, a diretora de “Um dia” e sua doída love story encerram um ciclo (polêmico, porém edificante) de 18 anos de direção artística atribuída ao crítico e curador alemão Dieter Kosslick – o que abre precedentes para uma controvérsia tão forte quanto sua diversidade estética. Em 2020, Carlo Chatrian e Mariette Rissenbeek passam a dirigir o evento berlinense, que, neste ano, traz 17 títulos na briga pelo Urso de Ouro – dos quais sete são dirigidos por mulheres, num expressivo diálogo com o pleito global de empoderamento feminino. Alinhando-se mais e melhor a esse debate, o festival confiou a presidência do júri a uma estrela famosa por exigir formas mais plurais de  expressão da sororidade nas telas: a atriz parisiense Juliette Binoche. E há uma cineasta brasiliense como jurada na competição de documentários: Maria Augusta Ramos (de “O processo”). Não por acaso, o troféu honorário Berlinale Camera, em 2019, vai para um ícone da luta contra o machismo nos sets, a nonagenária diretora belga Agnès Varda, que lança o documentário inédito “Varda par Agnès”. E o Urso de Honra do ano fica com uma atriz e modelo acostumada a desafiar práticas sexistas, a inglesa Charlotte Ramplig. Como um gesto simbólico de despedida, Kosslick organizou ainda uma reunião, agendada para o dia 9, para assinar um termo de compromisso de equidade de gêneros para edições futuras. Ou seja, fez tudo de bom e de bonito para sair em alta.
Vai ter a estreia de Wagner Moura na direção, o thriller “Marighella”, com Seu Jorge, na seleção oficial, mas em sessão hors-concours. E tem mais uma esquadra brasilera com ele. Há outros oito filmes nacionais no menu de Berlim: “Divino amor”, de Gabriel Mascaro; “Greta”, de Armando Praça; “Estou me guardando para quando o carnaval chegar”, de Marcelo Gomes; “Espero tua (re)volta”, de Eliza Capai; e “Rise”, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca; “Querência”, de Helvécio Marins Jr.; “A Rosa Azul de Novalis”, de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro; e “Chão”, de Camila Freitas. Há ainda as coproduções “La arrancada” (com Cuba) e “Breve história del planeta verde” (com a Argentina). A vitrine é luminosa. Berlim promete…