Laboratório Pop

‘Borrasca’ leva ‘tudo que dói’ em Bortolotto pra TV

29 maio 2019 / Sem comentários / em Cinema


Rodrigo Fonseca
Uma das mais corajosas experiências de encenação do cinema nacional a chegar ao circuito este ano, “Borrasca” acaba de entrar na grade do Canal Brasil. Vai ter sessão nesta quinta-feira, às 10h15, no Canal Brasil, com repeteco no dia 4, às 17h40.

Lá pelas tantas da doída coletânea de poemas “O pior lugar que eu conheço é dentro da minha cabeça”, Mário Bortolotto nos ensina que “pessoas destruídas pelo tempo/ ainda podem conviver com o perigo/ como velhos tênis/ presos pelos cadarços/ em fios de alta tensão”. E completa, no cume de outra estrofe: “Dizem que até os santos devem morrer/ para viverem eternamente”. Os versos que saíram como literatura se alinham com a saliva que o poeta, músico, dramaturgo e ator (bom pacas) cospe nas bochechas retesadas de Eldo Mendes (igualmente potente na atuação) em “Borrasca”, um dos filmes brasileiros de maior coragem narrativa do ano. Parece filme de fala, num parlatório parecido com o brilhante início de “Amargo regresso” (1978), de Hal Ashby, ou mesmo com “The sunset limited”, de Tommy Lee Jones. Mas as peças que o cineasta Francisco Garcia (do farpado “Cores”) escolheu para compor seu puzzle sobre o desmantelo afetivo ampliam a dimensão de sinestesia desse espetáculo: no caso, a direção de arte de Monica Palazzo e a fotografia de Alziro Barbosa. Eles esculpem uma Fortaleza da Solidão no apartamento onde se passa o embate entre dois amigos que choram o luto de um companheiro de cachaça e falação.


Autor de peças carregadas de tétano moral como “Medusa de Rayban” e “Hotel Lancaster”, que abriram entranhas comatosas do teatro brasileiro, Bortolotto fez um desabafo poético que sintetiza sua gramática: “Tenho alguns amigos que fazem muita merda/ eu faço muita merda/ Tenho alguns amigos que saem de controle/ eu já saí muito de controle/ Tenho amigos que se emocionam/ ouvindo Van Morrison/ é ruim de eu não me emocionar”. Sua matéria é a lealdade, mesmo nos estágios improváveis da confiança. E ele esculpe essa argamassa sob um método ruidoso parecido com o do cineasta (e ícone indie) Hal Hartley (“Flerte”, “Amateur”): a razão cínica une os dois, na ótica da atomização das certezas que sustentam as aparências. No teatro e na obra poética dele, querer é um trinômio verbal entre saber perder, segurar a onda e encher a cara para esquecer (ou para suportar).

O maior acerto dramatúrgico de Garcia nesta imersão no universo de Bortolotto é dar a este tripé de ações carne, pele e cheiro de suor azedo. Fala-se muito, num pingue-pongue de câmera, que ziguezagueia louca atrás de predicados sangrados de mágoa, entre sujeitos que tentam indeterminar sua própria força. O papo sobre o coelho Ricochete e o debate sobre um sanduíche do Bob’s injeta pop nas veias de um filme que se disfarça de teatralidade para chegar ao intimismo máximo do cinema.

Tem peça de Bortolotto em cartaz no Teatro Alfredo Mesquista, de sexta a domingo: “Tudo que dói”.

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