Laboratório Pop

Catherine Breillat garimpa pérolas em Locarno

9 ago 2019 / Sem comentários / em Cinema

Cena de “Maternal”, de Maura Delpero: ovação da plateia


RODRIGO FONSECA
Para imprimir elegância à decisão dos premiados de sua 72ª edição, em andamento até o dia 17, na Suíça, a direção artística do Festival de Locarno, comandada pela francesa Lili Hinstin, escolheu uma cineasta que encarou um rosário de lágrimas em sua vida pessoal para presidir o júri: sua conterrânea Catherine Breillat. Realizadora de filmes premiados como “Para minha irmã” (2001), a cineasta de 71 anos comanda um time formado pela diretora alemã Valeska Grisebach, a produtora holandesa Ilse Hughan, o ator argentino Nahuel Pérez Biscayart e o crítico italiano Emiliano Morreale. Nesta sexta-feira, eles conferiram a história de amor assolada por dilemas de luta de classe “Douze mille”, de Nadège Trebal (França), e uma imersão nos dilemas da fé católica mezzo italiana, mezzo argentina “Maternal”, de Maura Delpero. Este último foi ovacionado, sobretudo pelo desempenho da atriz Lidiya Liberman no papel de uma freira dedicada a cuidar de mães solteiras na América do Sul. O humor da crianças que integram o elenco mirim é contagiante. É uma narrativa que toca a questão do claustro moral, tão cara à obra de Catherine, mais conhecida aqui pelo erótico “Romance”, de 1999, no qual dirigiu o muso pornô Rocco Siffredi.

Há tempos ela passou por um inferno afetivo, que transformou numa narrativa de tons autobiográficas. Fruto amargo de angústias pessoais, “Uma relação delicada” (“Abus de faiblesse”) é uma reflexão sobre modos de olhar, construída na várzea do melodrama. A deixa é dada nos primeiros minutos quando a protagonista, a cineasta Maud Schoenberg (Isabelle Huppert), cai com parte do corpo paralisado por decorrência de uma hemorragia cerebral. Na queda, um desabafo explica tudo: “Quando acordei tudo estava igual. Mas, de fato, nada estava igual”. Dois pesos, dois olhares, duas medidas. Assim transcorre esta produção de tintas biográficas que a diretora – icônica por sua afrodisíaca aposta na sexualidade, expressa em filmes na franja da pronografia como “Romance” – construiu com base em sua autobiografia homônima. Vítima de um AVC há uma década, Catherine caiu na lábia de um escroque, Christophe Rocancourt, a quem esperava escalar como galã de um filme (“Bad love”) nunca realizado. O projeto parou mas Rocancourt grudou em Catherine (então enferma) e usou seu charme para convencê-la a lhe emprestar dinheiro. De cheque em cheque, ela ficou com uma dívida bancária de 800 mil euros. Apesar da mágoa, levou o malandro à Justiça e seguiu difamando-o num livro de memórias e agora neste longa, no qual põe a inocência contra a parede. A tese aqui: a ingenuidade é sempre relativa, o crime não.

Fotógrafo-assinatura dos irmãos Jean-Pierre e Luc Dardenne há 24 anos, Alain Marcoen empresta sua lente sempre de traços documentais a Catherine, que conta com todos os feitiços de Madame Huppert para recriar momentos dolorosos de sua vida íntima. Aqui, Maude (alter ego de Catherine) perde parte de seus movimentos, mas não perde a gana de filmar, arquitetando um projeto com base em uma entrevista que vê na TV de um escroque profissional, Vilko (Kool Shen). Na primeira olhada, ela sabe que o caráter dele é nulo, mas sua virilidade é magnética. E, ao exalar desejo, ele enreda Maud, que, embora perceba o ovo da serpente chocando à sua porta, prefere dizer: “Era eu. Mas não era eu”. A cada dúvida fabricada, a plateia vê Vilko sob um ponto de vista diferente. Assim como vê Maud de formas opostas: ora frágil, ora vilã de si mesmo. O que não muda é a França onde o enredo se passa, pois, como sempre, na obra de Catherine, o país é uma miscelânea de víboras e cordeiros convivendo juntos na construção de uma nação grande, mas enferma como Catherine, inteira neste filme-confessional.

A cineasta Catherine Breillat, presidente do júri suíço em 2019: 17 longas em competição

Confira a lista completa de concorrentes ao Leopardo de Ouro de 2019:
“A febre”, de Maya Da-Rin (Brasil); os portugueses “Vitalina Varela”, de Pedro Costa; “O fim do mundo”, de Basil da Cunha, e o esperadíssimo “Technoboss”, de João Nicolau; “Bergmál”, de Rúnar Rúnarsson (Islândia); “Cat in the wall”, de Mina Mileva e Vesela Kazakova de Joe Talbot (EUA); “Douze mille”, de Nadège Trebal (França); “A voluntary year”, de Ulrich Köhler e Henner Winckler (Alemanha); “During revolution”, de Maya Khoury (Síria); The science of fictions”, de Yosep Anggi Noen; “Les enfants d’Isadora”, de Damien Manivel (França); “Longa noite”, de Eloy Enciso (Espanha); “Maternal”, de Maura Delpero (Argentina/ Itália); “Height of the weight”, de Park Jung-bum (Coreia do Sul); e “Terminal Sud”, de Rabah Ameur-Zaïmeche (França).

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