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Courtney Barnett volta ao disco para, de novo, reorganizar o indie

Creature of Habit é solar como uma longa roadtrip no meio do deserto

por Robert Halfoun

O texto publicado na Pitchfork sobre Creature of Habit, o novo álbum da Courtney Barnett, é genial ao dizer que ela “sabe fazer dois acordes durarem uma vida toda”. Agora com uma luminosidade quase solar, ainda não vista no trabalho da artista.

Quando falamos em solar, no entanto, é preciso explicar para não parecer bobo: trata-se de som, de timbre, de como os elementos são distribuídos e sustentados ao longo das faixas.

Foram quase cinco anos entre Things Take Time, Take Time (2021) e este novo disco. No meio do caminho, um ponto decisivo: End of the Day (2023), trilha instrumental para o documentário Anonymous Club. Ali, Barnett retira a voz e trabalha com repetição contínua e variações mínimas. Essa lógica reaparece agora dentro da forma canção, assim como as guitarras limpas que ouvimos ali.

Ambos os aspectos revelam maturidade e entendimento sobre a própria música. Não há ruptura, há ajuste fino. E é exatamente esse tipo de movimento que mantém Barnett como um dos nomes centrais do indie contemporâneo. Em declaração para a revista Rolling Stone, Courtney justificou o hiato de quase 5 anos entre os discos dizendo que “conseguia perceber que estava repetindo padrões sem me dar conta”. Para o jornal The Guardian, disse: “Não era falta de ideias. Era mais uma necessidade de entender o que ainda fazia sentido para mim.”

Desde que surgiu em 2013, a australiana traz canções guiadas por progressões simples, conduzidas pela cadência da fala. Em 2015, Sometimes I Sit and Think, and Sometimes I Just Sit reorganiza o indie ao colocar a escrita no centro da música, com construção de cena e atenção aos detalhes da história contada. O impacto é tremendo e se estende a uma geração que inclui Phoebe Bridgers, Snail Mail e Soccer Mommy. Dali para frente, Barnett passa a funcionar como referência estrutural dentro do indie da última década.

Recentemente, ela migrou de Melbourne para Los Angeles, e a mudança de ares parece ter mexido na sua produção musical, levando-a para o tal lado mais solar dito antes aqui. O texto sobre Creature of Habit publicado na Pitchfork é preciso também quando diz que o disco soa como “uma trilha sonora para uma longa viagem numa estrada no meio do deserto”. O cenário descreve exatamente a bela experiência que é ir de carro de Los Angeles para Las Vegas, num retão interminável, no meio do nada, durante quatro horas.

O que Courtney Barnett nos entrega agora é exatamente isso: andamento estável e poucas variações dinâmicas.
A produção de John Congleton é curiosa nesse sentido. Conhecido pelos trabalhos com St. Vincent e Sharon Van Etten, nos quais trabalha com contraste e densidade, aqui ele faz o contrário: opera por redução, deixando os elementos mais expostos e com menor interferência entre si — o que é genial.

Algumas faixas deixam isso claro sem depender de descrição excessiva. “Stay in Your Lane” mantém a música girando sobre um mesmo eixo rítmico, é quase um loop; “Mantis” traz uma progressão contínua e feliz. “Same” introduz sintetizadores de forma discreta, apenas para temperar a mágica de brilhar com apenas dois acordes. Então, na ideia de road music (só que não), Barnett acelera e vai embora.

Sem curvas, encontra Waxahatchee, com quem compôs “Site Unseen”. Importante dizer que Katie Crutchfield (Waxahatchee) fez um dos discos (Tigers Blood) mais festejados do indie recente, em 2024. A canção reforça a proposta de clareza melódica que permeia Creature of Habit do começo ao fim.

Do estúdio para o palco, vai funcionar que é uma beleza.
A nova turnê prevê circuitos mais controlados, com datas na Europa, Estados Unidos e Austrália distribuídas em blocos menores, passando por festivais e casas médias — um formato coerente com a escala e a dinâmica de uma obra aparentemente fácil e gostosa de ouvir, para encarar a vida com mais cor e de cabeça erguida. Courtney Barnett também fala muito sobre isso.