Na Tela

Dead Man’s Wire revela um Gus Van Sant mais reflexivo

O diretor volta com caso real visto sob o aspecto humano, não como espetáculo

Por Laboratório Pop

Depois de sete anos sem lançar um longa, Gus Van Sant volta ao cinema com Dead Man’s Wire, um thriller baseado em um caso real ocorrido nos Estados Unidos, em 1977. O ponto de partida é forte: um homem em colapso financeiro sequestra seu próprio corretor e o mantém preso a um dispositivo improvisado — um fio conectado ao gatilho de uma espingarda, que dispara caso a vítima tente escapar.

O que poderia facilmente se transformar em um filme de alta tensão, centrado na escalada dramática do sequestro, segue outro caminho. Van Sant não se interessa pelo espetáculo. O filme acompanha o desenrolar das mais de 60 horas de negociação não como uma sucessão de picos dramáticos, mas como um processo — lento, irregular, muitas vezes banal.

No centro está o personagem vivido por Bill Skarsgård, num registro mais contido do que o habitual. Ao redor dele, o filme constrói um sistema: a polícia tentando controlar a situação, a imprensa amplificando cada movimento, e figuras de autoridade — como o personagem de Al Pacino — funcionando como mediadores de um conflito que nunca é apenas individual. O elenco ainda inclui Colman Domingo e Dacre Montgomery, compondo um conjunto que reforça a dimensão coletiva do episódio.

Essa escolha desloca o foco. O sequestro deixa de ser o evento principal e passa a ser o ponto de convergência de forças maiores: ressentimento econômico, falência pessoal, necessidade de reconhecimento e, sobretudo, a forma como tudo isso é absorvido e transformado em narrativa pública.

Há ecos claros do cinema americano dos anos 1970 — especialmente em filmes que lidavam com figuras à margem e crises sociais —, mas Van Sant não tenta reproduzir esse modelo. Ele trabalha de forma mais seca, mais observacional. A câmera raramente dramatiza. Os acontecimentos são mostrados quase sem hierarquia, como se o filme se recusasse a indicar onde exatamente está o “clímax”.

Esse controle formal ajuda a entender por que parte da crítica internacional recebeu o filme com uma mistura de interesse e reserva. Há reconhecimento da solidez — do elenco, da reconstrução de época, da clareza narrativa —, mas também a percepção de que Van Sant está operando num registro mais clássico do que em trabalhos anteriores. Não há aqui o risco formal de Elephant ou Last Days. Há, em vez disso, um filme que aceita certas convenções do gênero.

Para o público, isso pode funcionar a favor. Dead Man’s Wire é mais acessível do que grande parte da filmografia recente do diretor. A história é clara, o conflito é reconhecível, o ritmo, embora controlado, não é hermético. Ao mesmo tempo, quem espera um thriller mais intenso pode sentir falta de maior variação dramática.

O que permanece é a escolha central: Van Sant não tenta transformar o sequestrador em figura excepcional. Ele o trata como produto de um contexto — alguém que colapsa dentro de um sistema que já não oferece saída. E, talvez mais importante, mostra como esse colapso rapidamente se torna espetáculo.

No fim, Dead Man’s Wire não é um filme sobre um crime, mas sobre como ele é visto, negociado e consumido. Um retorno menos radical do que se poderia esperar — mas que revela um diretor interessado em observar, mais do que em provocar.