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Lumï faz as canções mais belas que você ouvirá em 2026

Elas estão em Speak Softly, EP recém-lançado, cujo título diz muito sobre a dupla

por Robert Halfoun

Descoberta da portuguesa Maro, o Lumï faz as canções mais belas que você ouvirá em 2026

Elas estão em Speak Softly, EP recém-lançado, cujo título diz muito sobre a dupla

A dupla Lumï é formada pelas holandesas Loeki Jeuken e Claudia Verbakel, que se conheceram em Utrecht ainda fora de qualquer circuito estruturado, escrevendo juntas para pequenos projetos e trilhas antes de assumir um formato autoral.

O início não passa por selo, empresário ou estratégia de lançamento, mas por insistência em tocar ao vivo em ambientes mínimos — noites híbridas entre showcase e residência, onde a exposição é limitada, mas a escuta é atenta.

Não raro, em aparições descompromissadas em bares, por exemplo, a dupla lançava suas vozes de anjo à capela com alguma percussão improvisada, apenas para marcar o ritmo. Então, iam conquistando ouvinte por ouvinte, que começavam a acompanhá-las no canto. Em pouco tempo, todos estavam cantando numa íntima catarse musical. Bonito de ver.

Daquele tempo, anteontem, o que existe são registros mínimos: demos e vídeos caseiros, voz e violão, nada de produção. Esse material começa a circular em playlists editoriais menores e, sobretudo, entre músicos — um fluxo lateral, sem intermediação formal. É nesse circuito que o nome da dupla começa a aparecer. E surge a fada madrinha: Maro.

A cantora portuguesa apaixona-se pela dupla, vai vê-las numa apresentação em Amsterdã, quando faz o convite para que elas abram seus shows na cidade. A resposta é: “Mas nem temos repertório para isso…”. E a réplica: “Virem-se”, reforçando que não se tratava de uma abertura protocolar, mas de uma integração artística.

Ela estava certa. E aqui há uma curiosidade relevante: durante a passagem de som para a apresentação, um problema técnico simples obrigou a dupla a reorganizar o arranjo ali mesmo, reduzindo ainda mais a instrumentação e concentrando tudo nas vozes e em uma única linha harmônica. O que poderia ser um improviso técnico acabou definindo o impacto da apresentação.

Relatos de imprensa local e comentários posteriores descrevem que o silêncio da sala após a primeira música foi incomum para um show de abertura — menos reação imediata, mais atenção concentrada. Ao final do set, a recepção já era de artista principal.

Em entrevistas, a própria Maro definiu a apresentação como “uma das aberturas mais completas que já viu”, destacando justamente a economia de meios e o controle vocal como diferencial — um reconhecimento importante dentro de um circuito onde a curadoria costuma ser precisa e exigente.

Em apresentações posteriores, o Lumï não apenas abre os shows, mas passa a dividir momentos do set com Maro – em vídeos de bastidores e registros de shows, aparece essa dinâmica de colaboração vocal, com a dupla funcionando como extensão harmônica do próprio repertório da cantora.

Toda essa história ajuda a entender Speak Softly, o EP de estreia da dupla, com canções belas como raramente se vê, assim como as interpretações. O disco não é construído a partir da ideia de ajuste fino, eliminação de excesso. A Pitchfork observa que o trabalho “encontra força na recusa do clímax”, apontando que as vozes funcionam como “um único corpo sonoro”, enquanto a Also Cool Mag descreve o disco como algo que “se desenrola como um sussurro contínuo”, onde a fragilidade é estrutural, não decorativa.

Para melhorar, os arranjos não poderiam ser mais adequados à proposta da banda, a partir de camas sonoras simples e profundas que levam a loopings rítmicos muito sofisticados — leia-se repetição como elemento de construção ao estilo Thom Yorke em “Videotape”, última faixa de In Rainbows.

Difícil destacar canções numa obra em que a própria Maro, de novo ela, diz que ouve de cabo a rabo, sem distinções. Para uma introdução apressada, mergulhe em “The Truth Can Wait” e “Once in a Blue Moon”, magníficas, para dizer o mínimo.

A circulação do EP segue o mesmo padrão do episódio com MARO: parte de um núcleo restrito — blogs, rádios independentes, curadorias digitais — e ganha escala, especialmente porque a dupla está em turnê pela Europa como headliner em casas pequenas, sempre lotadas.

Em poucos meses, o Lumï já aparece em playlists a rodo e listas críticas, enquanto chama atenção por uma beleza tocante que posiciona a dupla hoje como autora de um dos trabalhos mais precisos a emergir recentemente no circuito alternativo europeu.

O prognóstico é que cresça e ganhe o mundo.