Quando o Lollapalooza Brasil divulgou seu line-up para a edição de 2026, em setembro de 2025, apareceu entre os artistas um nome que ainda não circulava no público: Foto em Grupo.
Naquele momento, o projeto ainda não tinha músicas lançadas nem histórico de apresentações. O anúncio despertou curiosidade imediata porque a banda reunia quatro músicos já conhecidos da cena pop-indie brasileira: Ana Caetano, do Anavitória, Pedro Calais e Otavio Zani Cardoso, da Lagum, e João Ferreira, vocalista da Daparte.
O que parecia inicialmente uma formação pontual de festival logo se revelou um projeto musical propriamente dito, surgido de sessões de composição entre os quatro artistas.
A convivência entre eles vinha de antes. Lagum e Daparte pertencem à mesma geração da cena mineira contemporânea, enquanto Anavitória já mantinha proximidade artística com músicos desse circuito. Entre encontros em festivais, estúdios e sessões de composição, começaram a surgir músicas escritas coletivamente.
À medida que o repertório avançava, tornou-se evidente que aquelas canções não se encaixavam plenamente em nenhum dos projetos principais de cada integrante. A solução foi assumir o material como um trabalho próprio.
O primeiro lançamento do grupo foi o single “Toda Esfera”, faixa que apresentou ao público a proposta estética da banda: canções construídas a partir da alternância de vozes, arranjos enxutos e uma escrita que combina elementos do indie-pop com uma tradição brasileira de composição intimista.
Pouco depois, o quarteto lançou o álbum “Foto em Grupo”, disco de estreia com onze faixas. O trabalho evidencia um processo de criação compartilhado. Diferentes integrantes assumem os vocais principais ao longo do repertório e a autoria das músicas aparece frequentemente dividida entre dois ou mais membros da banda.
Entre as faixas do disco estão “Eu Tenho Medo”, “As Teias e as Aranhas” e “Me Chama Pra Dançar”, canções que passaram rapidamente a circular entre o público da nova música brasileira. O repertório alterna momentos mais introspectivos com estruturas pop abertas, refletindo as diferentes referências trazidas pelos quatro músicos.
Do ponto de vista sonoro, a Foto em Grupo se insere numa tradição brasileira de canção pop autoral que combina escrita introspectiva e arranjos diretos. Há ecos de linhagens bastante reconhecíveis: algo do lirismo melódico associado ao universo do Clube da Esquina, a espontaneidade pop de Barão e Cazuza e certa liberdade de construção ligada aos Os Mutantes. Essas referências aparecem mais como pano de fundo cultural do que como citação direta. O resultado é um repertório que preserva personalidade própria, sustentado pela alternância de vozes e por arranjos que privilegiam a clareza melódica.
Dentro da cena independente brasileira, a Foto em Grupo ocupa uma posição particular. Diferentemente de muitas bandas que constroem visibilidade gradualmente, o projeto nasce com artistas que já possuem trajetórias consolidadas e públicos próprios. Ao mesmo tempo, o grupo não funciona como simples extensão dessas carreiras.
A banda foi concebida como um espaço paralelo de criação. Sem a necessidade de representar integralmente as identidades de Lagum, Anavitória ou Daparte, os músicos exploram um território comum onde diferentes linguagens de composição podem se encontrar.
Essa dinâmica coletiva tornou-se também um dos traços mais visíveis nos shows. Em apresentações recentes, é comum que o público acompanhe as músicas do primeiro álbum do início ao fim, sinal de que o repertório encontrou rápida circulação entre ouvintes da cena indie brasileira.
A participação no Lollapalooza Brasil acabou funcionando como uma vitrine importante para o grupo. O festival apresentou a Foto em Grupo a um público amplo justamente no momento em que a banda começava a consolidar seu repertório e sua identidade artística.
Mais do que um supergrupo ocasional, Foto em Grupo se afirma como um coletivo em desenvolvimento — um projeto que nasce da interseção entre trajetórias já estabelecidas e que encontrou, nesse encontro, uma linguagem própria dentro da música brasileira contemporânea.
