Laboratório Pop

Homem-Formiga leva a ‘Tela Quente’ à fervura máxima

3 jun 2019 / Sem comentários / em Cinema


Rodrigo Fonseca
Tem “Tela Quente” das boas esta noite: às 22h20, depois de “A dona do pedaço”, a Globo solta “Homem-Formiga” (2015) em sua grade, em versão brasileira, com Márcio Araújo dublando Paul Rudd. Com uma bilheteria global de US$ 519 milhões, “Ant-Man” (título original) não se configurou como o fenômeno popular que dele se esperava, em função do investimento de US$ 130 milhões feito pela Marvel Studios e pela Disney em seu orçamento. A aposta se devia ao resultado de seu primo mais velho, “Guardiões da Galáxia”, que, em 2014, teve uma rentabilidade mundial de US$ 774,1 milhões. A analogia entre eles se dá pelo fato de ambos serem derivados de BDs obscuras com sabor de chiclete (ou seja menos épicas e mais galhofeiras) do acervo de ,mascarados da Marvel. Porém, as dimensões mercadológicas acidentadas não podem arranhar o feito realizado pelo cineasta Peyton Reed em sua passagem do riso à ação na criação de um filme de aventura sobre laços de família. Mais do que isso, não se pode deixar de celebrar o engenho de Paul Rudd no esforço de se reinventar como intérprete, alcançando a atuação mais inspirada de uma carreira lapidada em suas parcerias com o diretor Judd Apatow.
Estabelecido como um cineasta de estilo singular com “Abaixo o amor”, em 2003, Reed deu indícios de autoria em longas-metragens como “Sim, senhor” (2008) e “Separados pelo casamento” (2006) ao se habilitar à tarefa de fazer crônicas sobre conciliações afetivas. Ele traz esse estilo para o Universo Marvel ao adotar como objeto de estudo a rotina de um pai em busca de se conciliar com a filha pequena de que teve de se afastar por conta de sua conexão com o crime, ainda que como bom ladrão. Scott Lang, o herói encarnado por Rudd sob um capacete de feições insectoides, é, antes de ser um justiceiro urbano, um cavaleiro da paternidade, desesperado por fazer de seu abraço um abrigo para a menininha que gerou antes de ir para o cárcere. A meta de ser um bom genitor vai guiar suas ações e dar ao filme um açúcar que os demais exemplares do cinema “marvete” não têm. Mas esse tempero de doçura não aleija o cuidado de Reed com o riso, pontuado mesmo os momentos de maior adrenalina de deixas cômicas. O equilíbrio de diferentes cartilhas de gênero é o atestado da maturidade de Reed como realizador.
Na cozinha de diferentes elementos cinematográficos e de uma mitologia quadrinística mais jocosas, o cineasta constrói um filme B, na melhor tradição de Roger Corman ou mesmo do George Miller de “Mad Max”. Gravita pela caricatura por opção, mas humaniza o que poderia ser um retrato bidimensional das relações interpessoais e das narrativas de violência. Na humanização de seus personagens, que crescem no bate-bola com Rudd, “Homem-Formiga” ganha uma geometria tridimensional e se aprofunda nos dramas. Na trama, Lang é tirado da cadeia pelo cientista Hank Pym (Michael Douglas, sempre carismático) com o intuito de roubar um traje experimental chamado Jaqueta Amarela, capaz de reduzir seu usuário a proporções de inseto. Trata-se de um invento transformado em aparato militar por um cientista de sanidade fraturada: Darren Cross, interpretado pelo astro revelação de “House of Cards” Corey Stoll. Ele é o ponto fraco do filme, pois atua com uma histeria que se destoa de seus pares. Contudo, os excessos de canastrice do vilão são filtrados sempre que Rudd está em cena. E eles se mostram invisíveis em sequências de pura cinemática como a disputa num trem de brinquedo, que fica para a história do audiovisual como o momento antológico do longa em termos de domínio da imagem.

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