Hot

Kavinsky, ícone da música eletrônica, é encontrado morto na sua casa

Ele definiu o synthwave com um legado que vai do cinema e fliperamas às Olimpíadas de Paris

por Robert Halfoun

A primeira cena de “Drive”, de Nicolas Winding Refn (2011), é um ícone da cultura pop. Ryan Gosling dirige um Chevrolet Malibu 73, o néon escorre pelo para-brisa e, sobre os créditos iniciais, “Nightcall”, com seu synth pulsante, define o caminho que uma geração inteira idolatraria dali em diante.

Curiosamente, naquele momento ninguém sabia dizer quem tinha feito a canção — cercada por timbres e uma atmosfera que parecia vir de outra década, como se tivesse ficado perdida em ondas sonoras até despencar sobre nós, exatamente ali.

O autor era o francês Vincent Belorgey, discreto o bastante para que o público mais desavisado de “Drive” nunca tenha aprendido a pronunciar seu nome de guerra: Kavinsky. Desde o EP de estreia, “Teddy Boy Kill”, em 2006, ele grava tudo no mesmo teclado, um Yamaha DX7 que a maioria dos estúdios já tinha aposentado nos anos 1990. Abre turnês de Daft Punk, Justice e SebastiAn — a leva de eletrônica francesa que reinventa o gênero na virada do milênio — mas nunca se comporta como DJ de festival: compõe atmosferas, não quedas de bumbo, e parece mais interessado no piscar de um fliperama do que na plateia à sua frente.

“Nightcall” nasce dessa obsessão. A parceria com Guy-Manuel de Homem-Christo, do Daft Punk, e a mixagem de SebastiAn amarram a faixa à mesma rede de colaboradores que sustenta toda a cena — mas o resultado soa deslocado no tempo, um artefato dos anos 1980 recuperado do fundo de uma gaveta. Refn escuta a música antes de filmar um único plano de “Drive” e decide que ela abre o filme. A escolha funciona melhor do que qualquer um poderia prever: o synth sobre os créditos iniciais batiza, para o resto da década, o synthwave e a estética outrun — o retrofuturismo em néon que a internet adotaria como linguagem visual própria muito depois de “Drive” sair de cartaz.

Kavinsky leva a piada adiante em 2013 com “OutRun”, seu álbum de estreia, batizado em homenagem ao jogo de arcade da Sega de 1986 — o mesmo que colocava o jogador ao volante de uma Ferrari Testarossa contra um horizonte cor-de-rosa. Do disco sai “Odd Look”, que The Weeknd remixa naquele mesmo ano, aproximando Kavinsky de uma safra de ouvintes americanos que nunca tinha ouvido falar de French Touch.

Depois vem o silêncio. Quase uma década sem disco novo, até 2021, quando “Renegade” — parceria com o cantor Cautious Clay, produzida por Gaspard Augé, do Justice, e Victor Le Masne — anuncia “Reborn”, seu segundo álbum, lançado em 2022. É um retorno discreto, sem o estrondo de “Nightcall”.

O estrondo viria de outro lugar. Em 11 de agosto de 2024, no Stade de France, Kavinsky sobe ao palco da cerimônia de encerramento das Olimpíadas de Paris ao lado de Angèle e da banda Phoenix para tocar “Nightcall” ao vivo, treze anos depois de “Drive”. A apresentação quebra o recorde de música mais identificada em um único dia na história do Shazam; a versão de estúdio com Angèle e Phoenix sai em seguida e circula como se a faixa tivesse acabado de ser composta.

Foi numa madrugada parisiense, e não numa americana, que a história de Kavinsky chegou ao fim. Na noite de 28 de julho de 2026, ele foi encontrado morto em casa, aos 50 anos. As primeiras equipes de socorro não identificaram sinais de crime na cena, mas a Promotoria de Paris abriu investigação para determinar a causa da morte. A imprensa francesa relatou que o músico vinha reclamando de dores de cabeça nos dias anteriores; o jornal Le Figaro apontou a suspeita de um AVC, sem confirmação oficial até o momento.

O presidente Emmanuel Macron chamou Kavinsky de “uma fonte de orgulho francês para sempre”. A ministra da Cultura, Catherine Pégard, escreveu que “com a partida repentina de Kavinsky, a França perde uma de suas vozes mais singulares” — e lembrou que “do filme ‘Drive’ às Olimpíadas de Paris, o mundo inteiro dançou ‘Nightcall’. Dançante e nostálgica ao mesmo tempo, sua música vai continuar a ressoar através de fronteiras e gerações.”