Myrna Silveira Brandão

O diretor cearense Armando Praça – aclamado pelo curta “A mulher biônica”, exibido em Clermont Ferrand, FR – começa bem sua estreia em longa-metragem. “Greta” foi selecionado para a Berlinale (7 a 17.02) e terá sua première mundial na prestigiada mostra Panorama, que está completando 40 anos. O filme segue Pedro (Marco Nanini), um enfermeiro homossexual de 70 anos que precisa liberar uma vaga no hospital onde trabalha para sua melhor amiga Daniela (Denise Weiberg). Para conseguir internar a amiga travesti no hospital lotado, ele esconde em sua casa Jean (Demick Lopes), um jovem que acaba de ser hospitalizado e algemado por ter cometido um crime. Quando os dois se envolvem amorosamente, começam a repensar suas escolhas de vida e o futuro.

“Greta” concorre no festival ao prêmio de audiência e da crítica internacional (FIPRESCI). O Brasil também participa na Panorama com “Estou me guardando pra quando o Carnaval Chegar”, de Marcelo Gomes.

Praça conversou com o LABORATÓRIO POP sobre sua motivação para fazer “Greta” e o que significa para ele e para o filme a estreia na Berlinale.

“Uma das razões que nos leva a fazer um filme, penso que a todos nós diretores, é a possibilidade de dividir uma história e um ponto de vista sobre determinado assunto com o maior número possível de pessoas. A seleção do filme para um festival dessa magnitude é não somente o reconhecimento do trabalho, mas também a possibilidade de mostrá-lo numa plataforma que dará visibilidade e fará com que o filme chegue a mais lugares e, sobretudo, seja visto por mais pessoas”, ressaltou.

Praça explicou o que o levou a fazer “Greta”, que é livremente inspirado na peça “Greta Garbo quem diria acabou no Irajá”, do dramaturgo Fernando Melo.

“A peça de Fernando Melo, originalmente intitulada “Greta Garbo, Quem Diria Acabou no Irajá”, foi lançada no início da década de 70. Naquele momento histórico as personagens retratadas no texto só podiam ser abordadas através do sarcasmo, da caricatura e do estereótipo. Quando conheci o texto em 2008, a montagem a qual eu assisti ainda abordava os personagens e suas histórias dessa forma, mas ainda assim percebi o quanto o enredo era atual e bonito e também o quanto aquela forma de olhar para os personagens havia ficado anacrônica”, detalhou o diretor ressaltando que essa foi sua principal motivação.

“Isso me provocou o desejo de atualizar aquela história através de uma nova abordagem dos personagens, abandonando a comédia, mas não o humor, e abraçando o drama, ou seja, mudando o gênero do texto original. Isso me parecia um desafio interessante como roteirista e diretor”.

Quanto à receptividade que espera em Berlim, o cineasta destaca que, para ele, a grande expectativa é poder redescobrir o filme através do olhar do público.

“Greta” ainda não foi visto por muitas pessoas que não estivessem envolvidas no seu processo de criação, então acredito que exibi-lo para um público cinéfilo e tão diverso culturalmente, atento a questões sociais e linguagem cinematográfica certamente me fará viver essa experiência”, afirmou o talentoso diretor de 40 anos.

A delegação brasileira já tem oito títulos na programação.

Novos filmes foram selecionados, desta vez na Mostra Fórum: “Querência”, de Helvécio Marins Jr – coprodução com Alemanha sobre a vida do vaqueiro Marcelo que sofre um assalto e perde todo o seu rebanho. E os documentários “Chão”, de Camila Freitas e “A Rosa Azul de Novalis”, de Gustavo Vinagre e Rodrigo Carneiro.

A Fórum é uma paralela que se caracteriza por filmes que desafiam convenções e retratam situações afetadas pela turbulência do mundo atual. Em 2003, “Amarelo Manga”, de Cláudio Assis foi um dos filmes premiados na Mostra com o importante troféu da Confederação das Artes.

A programação ainda não está concluída, mas conforme anunciado até agora, o Brasil já tem uma boa participação nesta edição, que abrirá com a estreia mundial de “The kindness of strangers”, de Lone Scherfig.

“Marighela”, de Wagner Moura, integra a mostra oficial, fora de competição, que está fechada com 17 filmes concorrendo aos Ursos de Ouro e Prata e cujo júri será presidido pela atriz francesa Juliette Binoche.

Moura retorna a Berlinale, onde esteve em 2008 na mostra oficial como ator de Tropa de Elite, de José Padilha, que ganhou o Urso de Ouro naquele ano.

O documentário “Estou me guardando para quando o carnaval chegar”, de Marcelo Gomes e “Greta”, de Armando Praça, farão sua estreia mundial na Panorama.

Gomes estará na Berlinale pela terceira vez. Em 2016 integrou a mostra oficial competitiva com “Joaquim” e em 2014 como roteirista de “O Homem das Multidões”, de Cao Hamburger, que tinha sido selecionado para a Panorama naquele ano.

Na Geração, mostra destinada aos jovens, Eliza Capai foi selecionada com “Espero tua (re) volta”, documentário sobre ocupação de prédios públicos por estudantes em São Paulo em 2015.

E o Brasil marca presença ainda concorrendo ao Urso de Ouro de melhor curta-metragem, com “Rise”, de Bárbara Wagner e Benjamin de Burca, uma produção Brasil / Canadá sobre músicos no submundo de Toronto.