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Smashing Pumpkins transforma “Mellon Collie” em concerto sinfônico

A Night of Mellon Collie and Infinite Sadness é uma releitura orquestral do clássico lançado em 1995

por Robert Halfoun

Trinta anos depois de redefinir a escala emocional e estética do rock alternativo, The Smashing Pumpkins transforma Mellon Collie and the Infinite Sadness numa obra de palco entre concerto sinfônico, ópera e ritual nostálgico. Em 2026, Billy Corgan leva à Europa a turnê A Night of Mellon Collie and Infinite Sadness, uma releitura orquestral do disco lançado em 1995 e frequentemente tratado como o grande monumento maximalista da geração alternativa dos anos 1990.

A proposta nasceu no fim de 2025, quando Corgan apresentou sete noites esgotadas na Lyric Opera de Chicago. O projeto saiu do formato convencional de revival nostálgico para virar uma reconstrução completa do álbum: orquestra de grande porte, coro, cantores líricos, arranjos assinados ao lado do maestro James Lowe e novas leituras para faixas como “Tonight, Tonight”, “1979” e “Bullet With Butterfly Wings”.

Corgan descreveu a experiência como “uma das mais satisfatórias” da sua vida artística. Segundo o músico, o impacto das apresentações em Chicago alterou a percepção que ele próprio tinha sobre a durabilidade emocional do álbum. “Esse sonho mágico não precisa acabar”, afirmou ao anunciar as datas europeias.

A turnê passará por cidades como Londres, Antuérpia, Paris e Madri em setembro de 2026. Em vez de reproduzir fielmente o disco, o espetáculo trabalha expansão de atmosfera, dinâmica orquestral e dramaticidade operística. Há uma tentativa clara de deslocar Mellon Collie do território do “álbum clássico do rock” para algo mais próximo de uma peça de repertório contemporâneo.

Isso faz sentido dentro da própria ambição original do disco. Em 1995, Corgan já tratava Mellon Collie and the Infinite Sadness como uma espécie de “The Wall da geração X”, um álbum duplo pensado para extrapolar o formato tradicional do rock alternativo americano. O grupo queria um trabalho gigantesco, excessivo, emocionalmente fragmentado e estilisticamente aberto. A gravação refletiu isso: Flood e Alan Moulder foram chamados justamente pelas diferenças radicais entre seus métodos de produção, enquanto a banda trabalhava em jornadas exaustivas para criar um disco deliberadamente expansivo.

Na época, os Smashing Pumpkins operavam num lugar raro: eram gigantes comerciais sem abandonar a obsessão autoral. Mellon Collie vendeu dezenas de milhões de cópias, gerou hits massivos e ao mesmo tempo preservou densidade estética incomum para o mainstream americano dos anos 1990. Era um disco que misturava shoegaze, metal, barroquismo pop, psicodelia, música de câmara e explosões grunge sem qualquer preocupação de unidade convencional.

A nova montagem reforça justamente essa característica teatral que sempre esteve presente no álbum. “Tonight, Tonight”, por exemplo, já carregava uma estrutura cinematográfica e arranjos de cordas monumentais em sua versão original. Agora, a canção retorna praticamente ao ambiente que sempre sugeriu. O mesmo vale para o eixo melancólico do disco — “Muzzle”, “Thirty-Three”, “Farewell and Goodnight” — que ganha leitura mais lenta, dramática e orquestral.

Também há um aspecto simbólico importante nesse movimento. Durante décadas, Billy Corgan foi tratado simultaneamente como gênio obsessivo e figura conflituosa do rock alternativo. Mellon Collie representava o auge dessa tensão: ambição artística gigantesca convivendo com desgaste interno extremo. Em entrevistas recentes recuperadas pela imprensa musical, o músico voltou a reconhecer o nível de pressão e conflito vivido naquele período, inclusive admitindo comportamentos destrutivos durante as gravações dos discos clássicos da banda.

Em 2026, porém, a relação parece outra. Não há mais tentativa de provar relevância diante do mercado ou disputar espaço geracional. A nova turnê opera mais como consolidação de legado. O disco já deixou de ser apenas um marco do rock alternativo para entrar num território raro: o de obra histórica suficientemente sólida para sobreviver fora do formato que a originou.

E talvez seja justamente isso que torna essa nova leitura relevante. Não se trata apenas de nostalgia dos anos 1990. Mellon Collie and the Infinite Sadness continua funcionando porque sua ambição nunca foi pequena. Desde o começo, Billy Corgan queria algo maior do que um disco de rock. Trinta anos depois, ele finalmente encontrou um formato capaz de assumir isso sem disfarces.

As datas europeias já foram anunciadas oficialmente para setembro de 2026:

1º de setembro — Royal Festival Hall, Londres
2 de setembro — Royal Festival Hall, Londres
6 de setembro — Queen Elisabeth Hall, Antuérpia (duas sessões: 15h e 20h)
8 de setembro — Salle Pleyel, Paris
9 de setembro — Salle Pleyel, Paris
11 de setembro — Palacio Vistalegre, Madri