Se você estranhou a formação inusitada, antes de continuar lendo esse texto, escute “Verve”, que está colada no link de streaming no final desta narrativa.
Spoiler: o que você vai ouvir é algo como se o Rush fosse do Nordeste. A canção é energética, intrincada, difícil de encontrar o ritmo – empolgante. Se preferir, também pode dizer que é genial.
Assim como o disco com o mesmo nome, lançado em agosto de 2025, aclamado pela crítica independente no Brasil e na Europa.
Falando do velho mundo, Lívia acaba de chegar de uma curta turnê por países como Áustria, Luxemburgo e Bélgica. Passou o rodo por onde passou. Leia os comentários:
Na Áustria, a leitura que aparece com mais clareza não é sobre performance, mas sobre construção sonora. Após o concerto em Feldkirchen, um dos registros mais objetivos destaca a combinação entre “virtuosidade” e “cores sonoras surpreendentes” — dois pontos que ajudam a entender o funcionamento do trio.
Não há excesso de elementos: sanfona, tuba e bateria operam como um sistema fechado, em que cada instrumento ocupa simultaneamente funções rítmicas e melódicas.
Em Graz, o comentário pós-show é direto — o trio “tomou conta do casa”. Sem análise, mas suficiente para indicar aderência imediata. Em Viena, o concerto no Akkordeonfestival aconteceu com ingressos esgotados. Não é detalhe. Trata-se de um dos festivais mais consolidados em torno do acordeão na Europa, um ambiente onde a tradição pesa e a expectativa estética é alta. Entrar ali já é filtro. Lotar é outra conversa.
O ponto comum dessas passagens não está na reação do público, mas na legibilidade da proposta musical fora do Brasil. O trio funciona sem depender de repertório reconhecível ou de códigos locais.
Vamos explicar: há algo de profundamente físico na música de Lívia Mattos. Não apenas pelo instrumento — a sanfona como extensão do corpo — mas pela ideia de que é a respiração, no sentido mais orgânico da palavra, que conduz a sua música. Incluindo momentos de apneia.
Ela vem desenvolvendo essa lógica desde o início da sua trajetória.
Lívia nasceu em Salvador e começou a tocar sanfona ainda jovem, dentro de um contexto que passa pela música popular nordestina, mas não se limita a ela. A formação inclui também experiências fora da música com circo e estudos em sociologia. Esse conjunto ajuda a explicar por que a sanfona não aparece como instrumento de gênero, mas como mecanismo de construção sonora.
Antes da carreira autoral, integrou a banda de Chico César, com quem circulou por anos em turnês no Brasil e no exterior. Esse período é decisivo para o desenvolvimento técnico: domínio do instrumento em contexto de canção, adaptação a diferentes formações e consolidação de uma escuta coletiva.
A discografia autoral começa com Vinha da Ida (2017), seguido por Apneia (2022). Os dois discos já indicam o caminho que se consolida em Verve: redução de elementos, ampliação de função de cada instrumento e abandono de hierarquias fixas.
Em Verve na ela chega ao ápice com a acertada escolha estética ancorada no trio com tuba e bateria. A ausência de baixo elétrico ou harmonia tradicional desloca o papel da tuba, que passa a operar simultaneamente como base e linha melódica. A bateria evita condução previsível e trabalha com subdivisões irregulares e texturas. A sanfona, por sua vez, não ocupa o centro o tempo todo: ela alterna entre condução, contraponto e silêncio.
O resultado é uma música em que o ritmo nem sempre se apresenta de forma evidente. Há deslocamentos constantes, mudanças de acentuação e momentos em que a pulsação parece suspensa — daí a ideia de apneia.
A crítica tem sido consistente na leitura desse processo. Destaca a capacidade de transitar por diferentes matrizes sem perda de identidade ; enfatiza a densidade e a construção sensorial do álbum ; aponta o equilíbrio entre experimentalismo e delicadeza.
O jornal italiano Il Manifesto observa uma questão interessante: embora soe brasileiríssima, Lívia parte em pedaços a ideia do óbvio e abraça um Brasil fascinante e não convencional.
Por aqui ou lá fora, a artista ocupa um espaço pouco saturado: o de uma instrumentista que trabalha na fronteira entre canção e música instrumental sem se fixar em nenhum dos dois campos. Então, passa a integrar um circuito específico — o da música contemporânea de matriz global — onde a consistência formal pesa mais do que a origem.
