Hot

Flea, do Red Hot Chili Peppers, tira da cartola um grande disco de jazz

Com Thom Yorke e Nick Cave, Honora extrapola a ideia do popstar vaidoso que se aventura no estilo

por Robert Halfoun

Ouvir Honora, do Flea, não se trata de avaliar como ele atua tocando trompete, o seu instrumento original com o qual passou horas estudando, todos os dias, nos últimos dois anos. Acima de qualquer coisa, o músico do Red Hot Chili Peppers acerta em cheio na linguagem do jazz contemporâneo e tira da cartola uma grande obra no gênero.

Muitas das suas influências estão escancaradas, algumas nominadas como veremos à frente. Não antes de falar sobre Miles Davis, a referência fundamental do álbum, não como o maior trompetista da história do jazz, mas como pensador de música. Como o sujeito que experimentou como poucos, como em Doo-Bop, disco importante para entender o jazz contemporâneo.

Ancorado nesse pensamento, ele estaria de pé, aplaudindo e balançando a cabeça daquele jeito dele para Flea e o seu Honora.

Das influências diretas que o trompetista/baixista (ou vice-versa) põe na sua música, ele tira da sua recém-revelada coleção de vinis, com milhares deles adquiridos desde os 11 anos de idade (Flea está com 60), algumas gemas como “Maggot Brain”, do Funkadelic, numa versão na qual começa recitando o poema de George Clinton. Vou citá-lo para você pensar sobre o que ele diz:

A Mãe Terra está grávida pela terceira vez
Porque vocês a engravidaram
Eu provei as larvas na mente do universo
Não me ofendi
Porque sabia que precisava me elevar acima de tudo isso
Ou me afogar na minha própria merda

A música segue com enorme profundidade (olá, Miles!) com a melodia “recitada” no trompete sobre base atmosférica – e assim vai até o fim, numa viagem sem volta. Quando George Clinton registrou a versão original, ele pediu para o guitarrista Eddie Hazel tocar como se tivesse acabado de perder a mãe. A parte foi gravada de uma só vez, num único take. Flea parece seguir a orientação.

Em seguida, Nick Cave protagoniza um dos momentos mais marcantes de Honora, cantando magistralmente (não há exagero aqui) “Wichita Lineman”, de Jimmy Webb, que quebrou as pernas do pop dos anos 1960, numa linguagem única e que seria definitiva para o que viria depois.

Mais uma vez é preciso falar da história para entender o contexto musical no qual a canção se desenvolve. Quando compôs “Wichita Lineman”, Webb dirigia por uma estrada no interior do estado do Oklahoma quando viu um técnico de linha elétrica (lineman) sozinho, em meio a postes e fios, perdido numa paisagem aberta, quase infinita, fazendo um trabalho fundamental e invisível. Esse é o tema central da canção.

Quando ela é lançada em disco, gravada por Glen Campbell, em 1968, surge numa forma de narrativa emocional condensada em poucos versos, numa dinâmica na qual tudo parece simples – e nada é. A versão de Honora é muito mais densa, quase espiritual. A base traz o dedilhado de guitarra e as linhas com textura perfeita do baixo acústico, que não é tocado por Flea, mas por Anna Butterss. Ele aparece em solos inspirados de flumpet, instrumento criado para músicos de alto nível, que mistura trompete com flugelhorn. Ele gera um som mais aveludado, mais quente. A escolha, afinal, é acertadíssima para a proposta da versão.

Thom Yorke é mais um convidado de Flea em Honora. Ele vem como co-compositor em “Traffic Lights”, uma das canções-ícone do disco. Ela traduz muito da ideia experimental que permeia toda a obra. Não à toa (e, claro, pela presença de Yorke) foi escolhida como primeiro single, lançado uma semana antes do disco em si. A atmosfera sincopada típica de Thom Yorke conduz o arranjo, numa quebradeira envolvente na qual o trompete de Flea parece responder às provocações dos vocais. É o que pode se chamar de jazz contemporâneo purinho, na veia.

Honora, aliás, se apresenta de cara como tal em “A Plea”, a canção que abre o disco e logo o encosta na parede, como se estivesse dizendo: “Olha, meu amigo, esquece a história do popstar vaidoso que se mete a fazer disco de jazz, porque aqui a coisa é séria”. Nove faixas e quase 50 minutos depois, Flea dá o seu recado final com o título da música que fecha o disco: “Free As I Want to Be”.

No futuro, fica registrado aqui, não estranhe se Honora for visto como uma obra seminal na trajetória do artista inquieto que costuma bagunçar o cenário musical. Desta vez, ele fez isso, com competência e sinceridade, no jazz contemporâneo – onde pode se quase tudo e que pode virar nada num estalar de dedos.