Quem ouve “Trailers do Futuro”, novo single da banda sergipana Cidade Dormitório, percebe um descolamento estrutural, algo que vem se desenhando mas não revela exatamente o que virá. As guitarras respiram devagar, os versos parecem caminhar na penumbra… Então, o universo musical se abre. Não é um solo, não é um refrão explosivo. É uma voz que entra lateralmente, altera a temperatura da faixa e muda o ponto de vista da canção.
Há ali uma inflexão real que permanece no ouvido depois que a faixa termina. Para quem acompanha a cena alternativa brasileira, o timbre não deixa dúvida: é Grisa. E tal participação diz muito sobre o lugar que ela ocupa hoje – restrito e muito valioso.
O momento com mais visibilidade coincide com um movimento recente dentro de sua própria obra. Em março de 2026, Grisa lançou o livro-objeto inspirado no álbum Amor Trespasse, trabalho que amplia o universo sensorial do disco lançado em junho de 2025. O projeto parte da lógica visual do antigo “olho mágico” — aquelas imagens aparentemente abstratas que revelam figuras ocultas quando observadas de determinada forma.
No livro, cada composição do álbum corresponde a uma imagem, criando um diálogo entre percepção visual e escuta musical e transformando o repertório em experiência tátil e gráfica.
A iniciativa sintetiza bem o modo como Grisa pensa sua produção artística. Em vez de tratar o disco como objeto fechado, ela o vê como um núcleo a partir do qual outras linguagens podem surgir — imagem, design, performance e experimentação sonora. Olha o que ela diz sobre a faixa “Animais”: “Toquei no violão e num omnichord. um dos meus instrumentos preferidos. Nele você faz acordes no teclado como em um acordeon, depois a touchplatefaz soar como uma harpa eletrônica. Também tem a cítara que construí, usei ela de um jeito não tradicional, só fazendo sons e puxando as cordas. Gravei em um take, sem regravar”.
Giovana Ribeiro Santos, a Grisa, nasceu em Assis, no interior de São Paulo. Sua trajetória se desenvolve num território pouco comum: o ponto de encontro entre a canção pop e a investigação científica do som.
Ela formou-se em engenharia mecânica pela Unicamp e aprofundou seus estudos em engenharia acústica na Le Mans Université, na França. Ao longo dessa formação participou de projetos ligados à Philharmonie de Paris e também à Universidade de Edimburgo, experiências que ajudaram a consolidar um olhar técnico sobre aquilo que, na música popular, quase sempre permanece invisível: a própria matéria sonora.
Esse percurso não ficou restrito ao campo acadêmico, ele atravessou diretamente sua criação artística.
Além de cantar e compor, Grisa também atua como luthier eletrônica, desenvolvendo instrumentos experimentais e dispositivos híbridos que utiliza em gravações e performances. Em vez de apenas escolher timbres disponíveis, ela frequentemente participa da construção do próprio instrumento que produzirá o som. A música, nesse caso, começa antes da canção — começa na própria engenharia do timbre.
Antes de afirmar essa identidade experimental, sua formação musical passou por caminhos bastante tradicionais. Ainda jovem estudou flauta doce e clarinete, participou da Big Band Lyra e frequentou o Festival de Música de Ourinhos, um dos centros históricos de formação musical do país. Esse contato inicial com a música instrumental ajudou a desenvolver um ouvido atento à estrutura sonora que mais tarde reapareceria em suas composições.
Sua presença na cena independente começou a se tornar perceptível no início da década de 2020. Um dos primeiros registros amplamente divulgados foi “Selva de Pedra”, canção que ganhou videoclipe em 2020 e já trazia traços do universo estético que Grisa continuaria explorando: tensão emocional contida, arranjos rarefeitos e forte dimensão visual.
Em 2022, essa linguagem ganhou forma mais definida com o EP “Caos // Mar Aberto”, desenvolvido a partir de gravações iniciadas durante a pandemia. O trabalho reúne canções que transitam entre ambient pop, indie eletrônico e momentos de experimentação sonora mais aberta, sempre sustentadas por uma construção minuciosa de timbres e atmosferas.
Nos anos seguintes, a artista passou a circular com mais intensidade dentro da rede da música alternativa brasileira. Seu nome apareceu em colaborações, coletâneas e projetos paralelos — entre eles as faixas “Any Problem If I Stay?”, com dramamine e SLSD, e “Horizonte Inerte”, com evt, incluída na coletânea Somnium. Mais do que participações pontuais, esses encontros revelam a lógica de funcionamento da cena independente contemporânea: uma rede de afinidades criativas na qual artistas transitam entre projetos e linguagens.
Em 2022 ela também lançou o EP “Wet Matchbox”, ampliando sua discografia e explorando novas direções sonoras. Esse percurso culminou em Amor Trespasse, seu primeiro álbum, lançado em junho de 2025 pelo selo midsummer madness.
O disco reúne várias dimensões do seu trabalho — canção intimista, pesquisa tímbrica e elaboração visual — e acabou se tornando o eixo central de sua obra até aqui. Antes do lançamento completo, Grisa apresentou singles como “Três de Espadas” e “Fogo Frio”, seguidos por “Mares de Morros”, que ampliaram o repertório desse momento de afirmação artística.
Parte desse universo criativo foi desenvolvido na Casa Líquida, espaço do qual Grisa é artista residente.
Na zona oeste de São Paulo, a Casa Líquida funciona como um laboratório artístico e residência criativa onde músicos, artistas visuais e pesquisadores convivem por períodos prolongados, desenvolvendo projetos em regime de troca constante.
O espaço abriga também o Estúdio Sem Piscina, onde algumas gravações ligadas ao universo de Amor Trespasse foram realizadas.
Mais do que um endereço de produção, a Casa Líquida tornou-se uma extensão natural do método de trabalho da artista. O ambiente privilegia justamente aquilo que define sua prática: o encontro entre pesquisa individual, experimentação técnica e convivência artística.
Nos últimos meses, essa expansão também se refletiu em novos registros audiovisuais e apresentações ao vivo, como a sessão “Grisa na Casa Rockambole”, em que a artista aparece acompanhada de banda interpretando músicas de Amor Trespasse, faixas anteriores e material inédito.
Enfim, entre laboratório e canção, entre circuito eletrônico e voz humana, entre constrição e expansão, Grisa constrói uma obra em constante transformação que parece não caber em si mesma.
