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Herzog dá aula de .doc e de dignidade em Cannes

19 maio 2019 / Sem comentários / em Cinema


Rodrigo Fonseca
Misto de etnografia, ficção e existencialismo, em seu olhar para os códigos de conduta e as tradições amorosas do Japão, “Family Romance, LLC.”, sobre um sujeito contratado para se fazer passar pelo pai de uma jovem, marcou a volta de Werner Herzog ao Palais des Festivals de Cannes, numa seleção de mestres fora de concurso pela Palma de Ouro. Aos 76 anos, o cineasta alemão, consagrado por cults como “Aguirre, a cólera dos deuses” (1972), anda filmando a mil por hora, em múltiplas funções. Além de ter aceitado trabalhar como ator na série “The Mandalorian”, baseada no universo “Star Wars”, ele tem feito documentários para a TV e para a telona em sequência. Teve dois no Festival de Tribeca, em abril.
“Eu já surpreendi montadores ao entregar como copião um material bruto de 300 minutos, quando as pessoas esperavam 300 horas. Não é que eu seja sucinto nas filmagens. É que há objetividade na arte também. Não sou catador de material reciclável. Não me pauto pela quantidade e sim pela qualidade. Fazendo ficção, nunca estourei uma hora de filmagem”, disse ele na Croisette, num bate-papo com a atriz Julianne Moore e o diretor Xavier Dolan, no ciclo de debates Mastercard Conversations.
Após ter chacoalhado as certezas políticas dos americanos sobre a extinta URSS com a projeção em Tribeca de “Meeting Gorbachev”
, já exibido no Brasil pelo É Tudo Verdade, o alemão radicado em LA Werner Herzog voltou a provocar o festival nova-iorquino com um segundo título documental no evento: “Nomad: In the footsteps of Bruce Chatwin”. A produção resgata as memórias do escritor inglês responsável por livros de viagem cultuados por sua riqueza literária e sua etnografia como “In Patagonia” (1977). Chatwin (1940-1989) deixou como herança para seu amigo germânico responsável por cults como “Aguirre, a cólera dos deuses” (1972) a mochila que o acompanhava em suas andanças pelo planeta, em expedições arqueológicas e paleontólogas. O novo filme do cineasta é uma revisão das recordações que o autor britânico colecionou.
“Meu cinema incorpora o meio ao indivíduo. Uma pessoa é o vetor humano que a cerca. Eu preciso do ambiente que a rodeia para perfilá-la, seja uma prisão, uma floresta, um gabinete. A leitura me ajuda muito. Confecciono meus roteiros lendo poesia: isso transcende a escrita e respinga na qualidade dos diálogos ou da estrutura narrativa”, disse Herzog, desfiando tabus da chamada “ética documental”. “Nos meus .docs, eu apareço, uso música, voz em off… há estilização porque não existe imagem capturada que não ganhe recorte estético que o transforme, que contagie sua suposta neutralidade”.

Curioso sobre as demais atrações? Bom confira o que a Croisette viu de melhor até agora:
The Lighthouse, de Robert Eggers: Quatro anos depois de botar Sundance para dormir no leito do pesadelo com “A bruxa”, o bamba americano da metafísica fantasmagórica histórica dá ao 72º Festival de Cannes seu espetáculo visual mais perturbador, em critérios físicos (no PB à la Béla Tarr de Jarin Blaschke) e dramatúrgicos, com direito a ter uma criatura tão assustadora quanto o bode Black Phillip de seu sucesso anterior: uma sereia imaginária… ou quase. Desde “Cosmópolis” (2012), o galã inglês Robert Pattinson entrou numa jornada perseverante para deixar a imagem de mocinho romântico que fez dele um astro em “A saga Crespúsculo”, com foco em papéis controversos. Nenhuma de suas atuações anteriores é mais visceral do que seu desempenho como um recém-contratado faroleiro, que lida com as bebedeiras de seu mestre (Willem Dafoe, numa barbárie gutural) e com a perda de lucidez no farol onde trabalho. É um projeto com a grife RT Features, do carioca Rodrigo Teixeira. Até agora… nada que se viu em Cannes tem tanto som, fúria e assombro. Onde: Quinzena dos Realizadores
Dor e Glória, de Pedro Almodóvar: Melhor dos concorrentes à Palma de Ouro já exibidos até agora, o devastador “Dolor y Gloria” fez com que o artesão espanhol massacrasse corações em sua passagem pela Croisette. Estima-se por aqui que enfim possa ser reconhecido com a Palma de Ouro que tanto merece com a história do ocaso (e posterior redenção) de um cineasta, Salvador Mallo (papel de um grisalho Antonio Banderas) cansado da vida, agrilhoado à solidão. O desempenho de Banderas é de doer na alma, pela tradução plena da fragilidade e do desamparo: Salvador sofre de dores na coluna e tem um problema na garganta, ligado ao sistema digestivo, que pode mata-lo engasgado. No roteiro, o cineasta faz a dramaturgia se esgarçar por caminhos inusitados, incorporando até chapas ortopédicas (em forma de animação) em sua narrativa. Onde: Competição
Canción Sin Nombre, de Melina León: Baseado em fatos reais, esta trama em P&B aborda a luta de uma jovem peruana dos anos 1980 para reaver sua bebê recém-nascida com a ajuda de um jornalista. Seu principal apelo: a fotografia de Inti Briones, que diluiu todas as referências banais da representação de seu país nas telas. Onde: Quinzena dos Realizadores
Atlantique, de Mati Diop: Única diretora negra já indicada à Palma dourada nos 72 anos de história de Cannes, esta realizadora francesa de origem senegalesa faz uma radiografia de múltiplas camadas da realidade de Dakar a partir de uma história de amor ausente: com a promessa de ter se casar com alguém com quem não ama, uma adolescente espera rever o namorado, um operário que cruzou o Atlântico atrás de uma vida melhor.Onde: Competição
The Wild Goose Lake, de Diao Yinan: Raras vezes a representação da violência em sagas sobre crime ganhou contornos plásticos tão virtuosos quanto o deste thriller chinês que esbanja ação ao narrar os esforços de uma mulher para entregar um criminoso em fuga para seus detratores e, com isso, libertar-se de suas dívidas. Onde: Competição
Zombie Child, de Bertrand Bonello: Espécie de “Carrie, a estranha” misturado com .docs do Arte sobre macumba, o novo filme do realizador de “Nocturama” (2017) trança dois tempos (os anos 1960 e a atualidade) e dois espaços (o Haiti e a classe média francesa) a partir de um grupo de alunas adolescentes que montam uma sororidade de estudos literárias e têm contato com os mistérios ocultos de um ritual de zumbificação usado em trabalhos servis na América Central. Uma das estudantes pede a uma imigrante haitiana que exorcize seus males de amor por um namoradinho, o que deflagra um processo de assombro. A filmagem dos rituais de sincretismo afro ultrapassam os males da alteridade. Onde; Quinzena
The Orphanage, de Shahrbanoo Sadat: A diretora do ótimo “Wolf and sheep” (2016) volta às telas narrando a luta de um órfão, fã de musicais de Bollywood, na Cabul dos anos 1980. A ida dele para um abrigo soviético é cercada de dor. Onde: Quinzena dos Realizadores
Bacurau, de Juliano Dornelles e Kleber Mendonça Filho: Com ecos de Walter Hill e John Carpenter, a trama do delicioso concorrente pernambucano à Palma de Ouro de 2019 aborda as mudanças no cotidiano de um povoado sertanejo cuja tranquilidade é abalada com a morte de uma anciã nonagenária. É a fotografia mais requintada de Pedro Sotero.
J’Ai Perdu Mon Corps, de Jéremy Clapin: A protagonista desta animação é uma… mão. Uma mãozinha tipo aquela da Família Addams, um tanto menos serelepe, que corre pelas ruas de Paris à cata do rapaz cujo corpo ela integrava. Onde: Semana da Crítica
Les Misérables, de Ladj Ly: De descendência maliana, Ladj Ly, francês com carreira de ator e de documentarista, mergulha na ficção a partir de um paralelo com a literatura de Victor Hugo, falando sobre um trio de policiais que se envolvem num conflito com a população de um subúrbio de Paris, com população majoritariamente negra. É a melhor montagem de todos os candidatos à Palma já exibidos: nervosa, mas aberta à reflexão das contradições sociais. Onde: Competição

A boa do dia: A Hidden Life, de Terrence Malick, que traz uma das melhores sequência sobre a espera da Morte já filmadas. Após uma safra de filmes recentes de linha messiânica, calcados em seus estudos da filosofia transcendentalista, como “A árvore da vida” (Palma de 2011), o veterano realizador americano nascido em Illinois, que comemora em 2019 seus 50 anos de carreira (estreou com o curta Lanton Mills, em 69), aplica seus ensaios sobre fé no contexto da II Guerra Mundial, em 1943. A aparição do ator suíço Bruno Ganz (1941-2019), morto em fevereiro, num momento crucial da trama, foi saudada com apupos de respeito, numa salva de aplausos. Ele vive um oficial da SS.
Em seu novo trabalho, o mais sóbrio e contundente desde “Além da linha vermelha” (Urso de Ouro em 1999) recria, com uma potência plástica singular, relativa à fotografia de Jörg Widmer, a saga do fazendeiro austríaco Franz Jägertätter, que se recusou a lutar em prol dos nazistas. Fala-se por aqui de um duplo prêmio de melhor atuação para o filme: um deles seria para o desempenho de August Diehl (de “O jovem Karl Marx”) no papel central; o outro pode ir pra impecável interpretação de Valerie Pachner como Fani, a mulher e pilar de Franz.

Cannes termina no dia 25.

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