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Tarantino revive o legado de Ron Ely em Cannes

24 maio 2019 / Sem comentários / em Cinema


Rodrigo Fonseca
Desde “Cães de aluguel” (1992), Quentin Jerome Tarantino desenvolve um superpoder único na indústria do audiovisual: resgatar carreiras do limbo, seja com pequenos papéis, seja com uma citação, caso que acaba de acontecer no Festival de Cannes, onde seu “Era uma vez em Hollywood” inflama debates. No magnífico painel histórico que ele cria de 1969, em maio a um oceano de menções honrosas, que vai de “Besouro Verde” a Sergio Corbucci (diretor italiano, mais conhecido pelo spaghetti “Django”), ele evoca o nome de Ronald Pierce Ely, ou apenas Ron Ely, o Tarzan da TV nos anos 1960. O ator texano de 80 anos, famosíssimo no Brasil da década de 1980, graças às contínuas reprises das aventuras do Rei das Selvas no SBT, é citado no delicioso longa-metragem de QT em função do personagem de Leonardo DiCaprio, o astro fracassado Rick Dalton.
“Fico imaginando que, no ocaso de uma carreira que foi grandiosa nos faroestes, sobraria a Rick apenas espaço em seriados exóticos de TV, meio Bs, tipo ‘Terra de gigantes’ ou ‘Tarzan’. Eu já vejo ele num set, ao lado de Ely, com este usando uma tanguinha de Tarzan, a perguntar ao meu personagem como é filmar com Corbucci na Itália”, disse Tarantino à Croisette.

Ely ganhou fama ainda no papel do herói Doc Savage, num filme de 1975, dirigido por Michael Anderson, a partir do guerreiro de bronze. Ele participou ainda de séries como “Superboy” e “Mulher-Maravilha”.

Nos últimos momentos da disputa pela Palma de Ouro de 2019, que tem “Dor e glória”, do espanhol Pedro Almodóvar, e “Era uma vez em Hollywood”, do americano Quentin Tarantino, como seus favoritos, Cannes encarou (com prazer para muitos, mas com enfado para outros tantos) quatro horas de sensualidade à flor da pele pilotadas pelo cineasta Abdellatif Kechiche: “Mektoube, my love: intermezzo”. Essa é a parte dois de uma trilogia idealizada pelo polêmico diretor tunisiano sobre descobertas sexuais da juventude, no Mediterrâneo dos anos 1990. O tomo anterior, “Canto uno”, foi lançado em Veneza, em 2017, sob protestos de uma superexposição do corpo de uma trupe de mulheres. Seis anos depois de ser laureado com o troféu máximo de Cannes por “O azul é a cor mais quente” (2013), que lhe rendeu fama de misógino e gerou conflitos com atrizes como Léa Seydoux, Kechiche aposta agora numa narrativa sensorialíssima, de 240 minutos de libido à flor da pele, radiografando a relação entre um grupo de estudantes em uma discoteca. Muitos têm origem árabe, o que pesa para as reflexões culturais da trama.
Na noite de, o cultuado “Boyz’n the hood” (1991) vai ser exibido nas areias do Cinéma de la Plage, em tributo póstumo ao realizador John Singleton, morto no dia 28 de abril, aos 51 anos. Na sexta, a programação chega ao fim com a projeção dos últimos concorrentes à Palma – o francês “Sibyl”, de Justine Triet, e o palestino “It must be Heaven”, de Elia Suleiman – e uma homenagem a Sylvester Stallone, com a exibição de cópia inédita de “Rambo – Programado para matar” (1982). Serão exibidos ainda trechos de “Rambo: Last blood”, que chega às telas em setembro.
No sábado, o Festival de Cannes.72 chega ao fim com a entrega de prêmios e a exibição da comédia motivacional “Hors norme”, com Reda Kateb e Vincent Cassel. Já as láureas da Un Certain Regard serão entregues nesta sexta-feira, tendo “A vida invisível de Eurídice Gusmão”, do cearense Karim Aïnouz, como favorito.

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