Ao Vivo

Wet Leg despeja uma porrada sonora nos ouvidos da plateia

A tensão ritmica é mais relevante que a imagem provocante da bombshell Rhian Teasdale

por Robert Halfoun

Antes do show no Le Transbordeur havia uma questão em torno de Rhian Teasdale que não era mais a mesma dos primeiros anos da Wet Leg.

A imagem inicial da garota de Isle of Wight, com vestidos longos que cobriam o corpo todo e a postura meio retraída foi substituída pela bombshell com a menor quantidade de roupa possível, colada ao corpo para valorizar as suas formas.

A pergunta: como essa nova Rhian, de fato, se comporta ao vivo? Apesar da quantidade absurda de fumaça e um set de luz sombrio a resposta é das mais interessantes: ela se mostra, usa o fetiche como arma mas não seduz.
Ela utiliza esse joguinho para valorizar a imagem da garota provocante que se faz de ingênua e reafirmar a estranheza que a banda cultiva.

Funciona por que ela assume a imagem de band leader mas não rouba a cena. A platéia de uma casa cheia até a boca vive intensamente o show conectada principalmente pelas músicas bem resolvidas de Moisturizer que conhece bem e pela incrível massa sonora que a banda gera ao vivo.

As canções soam praticamente iguais às versões de estúdio — mesmas estruturas, mesmas dinâmicas, mesmas quebras. As guitarras permanecem secas, repetitivas, sem camadas adicionais; o baixo sustenta; a bateria segura o andamento sem variações expressivas. Funciona porque o repertório foi construído assim. Não depende de expansão. Mas isso também define um limite.

O Wet Leg funciona muito bem em salas médias como o Transbordeur porque esse tipo de som ganha corpo na proximidade. A repetição vira pressão física, os detalhes aparecem, os silêncios têm peso. Em espaços maiores, essa mesma economia costuma diluir o impacto.

E é nesse ponto que o show em Lyon se torna revelador.
A banda está pronta para turnês próprias — isso já está resolvido. O público está lá, o repertório sustenta uma hora de apresentação sem queda. Mas ainda não há variação suficiente para ocupar escalas maiores com a mesma intensidade.

E Rhian, no centro disso, reforça essa leitura. Ela definitivamente não assume o papel de condutora do espetáculo. Não puxa a plateia, não reorganiza a dinâmica do show, não cria picos. Sua presença é parte do sistema, não o motor dele. Isso não enfraquece a performance. Ao contrário a fortalece num contexto indie. E fora dele?

O que Lyon mostra é uma banda exatamente no ponto de transição. Como a banda pode ou deve se comportar em escala maior?
Uma resposta importante é que o Wet Leg, como o futuro indica, ainda não é uma banda de arena. Está a um fiapo disso.