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Seu Jorge evoca Lô Borges e Nick Drake no melhor disco da carreira

The Other Side é uma obra rara, levou 16 anos para ser feito

por Robert Halfoun

Foram 16 anos entre as primeiras gravações de The Other Side e o lançamento do disco. Nesse intervalo, Seu Jorge virou ator reconhecido internacionalmente, consolidou turnês globais, transitou entre samba-pop, projetos de repertório e televisão. E lá estava uma obra rara, construída em silêncio, longe do padrão acelerado da indústria.

Mergulhado num repertório impecável, Jorge Mário da Silva surge no auge da maturidade. Eclético, profundo, com performance irretocável, agora sim ele se posiciona entre os realmente grandes. E isso não é pouco.

Não é porque o disco, como obra, pode ser comparado, sem medo, a álbuns gigantes da nossa música.

The Other Side é movido por arranjos magníficos, nos quais o pensamento de uma construção jazzista encontra orquestração no mais alto nível. Tudo, não poderia ser diferente, executado de forma brilhante. Numa referência direta, falamos de obras como Edu & Tom, de Edu Lobo e Tom Jobim, ou Falso Brilhante, da Elis, apenas para citar dois que vêm rápido à cabeça.

O álbum é produzido pelo artista com ninguém menos do que Mario Caldato Jr.
Ele é peça central na construção do álbum.

Nascido no Brasil e criado nos Estados Unidos, Caldato tornou-se um dos produtores mais importantes da música alternativa e do hip hop desde os anos 1980. Seu trabalho com os Beastie Boys em discos como Paul’s Boutique, Check Your Head e Ill Communication ajudou a redefinir a relação entre rap, colagem sonora, rock e psicodelia dentro da música norte-americana. Depois, ampliou sua atuação em trabalhos com Beck, Björk, Blur, Jack Johnson, Planet Hemp e Marisa Monte.

Sua assinatura sempre esteve ligada à busca de espacialidade, calor analógico e dinâmica natural dos instrumentos. Isso aparece imediatamente em The Other Side.

O disco evita compressão excessiva, não trabalha em função de impacto instantâneo e recusa a limpeza digital extrema que domina parte da produção contemporânea. Os instrumentos respiram. A voz ocupa o centro sem esmagar o restante dos arranjos. Há densidade, mas sem excesso de informação.

Aliado a tudo isso estão os tais arranjos magníficos, todos eles feitos pelo craque Miguel Atwood-Ferguson.

O compositor e multi-instrumentista norte-americano construiu uma trajetória singular aproximando linguagem orquestral de jazz, soul, hip hop e música experimental. Trabalhou com artistas como Flying Lotus, Thundercat, Dr. Dre, Anderson .Paak e Erykah Badu, desenvolvendo arranjos que tratam cordas como elemento estrutural da música, não como acabamento luxuoso.

Em The Other Side, essa abordagem aparece de forma decisiva. As cordas criam sombra, tensão e profundidade emocional sem transformar o álbum em exercício sinfônico grandioso.

Tudo permanece contido e, ao mesmo tempo, grandioso, como se não coubesse numa audição na sala da sua casa.

A coisa fica realmente séria em duas canções. “Vento de Maio”, de Márcio Borges e Telo Borges, gravada originalmente no álbum A Via-Láctea, de Lô Borges, em 1979, tem aqui versão exuberante, com linda e definitiva participação de Maria Rita. Ela evoca a mãe, Elis Regina, que também gravou a canção em Elis, de 1980.

“River Man”, de Nick Drake (olha que escolha maravilhosa), com Beck, é riquíssima em detalhes e revela Seu Jorge na melhor interpretação da sua carreira.

Na noite de lançamento de The Other Side, em São Paulo, o artista confirmou a intenção de trabalhar repertório, arranjos e interpretação como os grandes discos do gênero. E, mais do que isso, pensou em fazer uma obra “com caráter cinematográfico”. “Eu quero o Grammy. O americano.” De fato, The Other Side tem tudo para entrar no páreo.